Café robusta ganha espaço na lavoura brasileira, dobra a produção em 9 anos e chega perto do arábica
Variedade está deixando de ser coadjuvante na cafeicultura nacional com previsão de colheita de 22,1 milhões de sacas este ano, ante 10,4 milhões colhidas em 2016; arábica deve chegar a 44,1 milhões de sacas em 2026
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O café robusta, também conhecido como canéfora ou conilon, está deixando de ser coadjuvante na cafeicultura brasileira e vem ganhando cada vez mais espaço nas lavouras. Em dez anos, a produção dobrou, de 10,4 milhões de sacas em 2016 para 20,8 milhões de sacas no ano passado, quando atingiu recorde histórico, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para este ano, a expectativa é de um novo incremento, chegando a 22,1 milhões de sacas, expansão de 6,4% em relação a 2025, e um possível novo recorde histórico.
Como comparação, o Brasil produziu no ano passado 35,7 milhões de sacas da variedade arábica, principal referência de café de qualidade no mundo, o que representou queda de 17% em relação a 2016, quando a produção somou 43 milhões de sacas. Em 2024, o país produziu 39,5 milhões de sacas do arábica. Para 2026, a previsão da Conab é de colher 44,1 milhões de sacas. Segundo o head da Ascensa Brasil, Hugo Centurion, o café robusta não está tomando o lugar do arábica, mas o Brasil vive um movimento de diversificação da cafeicultura nacional.
Na produção total do ano passado, de 56,5 milhões de sacas, o robusta representou históricos 37%. Centurion explica que o forte avanço do robusta é puxado por questões como alta produtividade e clima mais adaptável. “O arábica continua sendo uma produção muito importante para o Brasil, principalmente nas exportações, mas enfrenta maior volatilidade. O arábica ainda é dominante no campo brasileiro, mas o robusta está conquistando espaço”, comenta.
A produtividade do robusta é mais que o dobro do arábica. No ano passado, a área plantada de robusta foi de 400 mil hectares, que produziram 20,8 milhões de sacas, média de 52 sacas colhidas por hectare, enquanto foram necessários 1,5 milhão de hectares para produzir 35,7 milhões de sacas de arábica, média de 24 sacas por hectare. O robusta também é mais resistente a calor e seca, tem custo menor e navega em um mercado aquecido pela demanda dos cafés blends e industriais, como o café solúvel e em cápsulas.
“O que estamos vendo hoje no Brasil não é apenas o crescimento de uma variedade, mas uma reconfiguração da própria cafeicultura, em que o robusta deixa de ser coadjuvante para assumir um papel estratégico, sustentado por ganhos expressivos de produtividade, maior resiliência às variações climáticas e capacidade de atender a uma demanda global crescente por cafés industriais e blends, sem que isso represente a substituição do arábica, mas sim a construção de um modelo mais equilibrado, eficiente e adaptado aos novos desafios do setor”, explica Centurion.
De acordo com o head da Ascenza, o avanço do robusta revela uma mudança de lógica no campo, em que o produtor passa a priorizar sistemas mais previsíveis e rentáveis, apoiados em tecnologia, manejo intensivo e menor exposição a riscos climáticos, ao mesmo tempo em que o Brasil amplia sua competitividade internacional ao diversificar a oferta. O país mantém o arábica como referência de qualidade, mas incorpora o robusta como um vetor de escala, custo e sustentação de mercado.
“O crescimento consistente do robusta nos últimos anos mostra que o Brasil está entrando em uma nova fase da cafeicultura, marcada pela busca de eficiência produtiva e maior estabilidade econômica, em que o aumento da participação dessa variedade reflete vantagens agronômicas e uma resposta direta às transformações do consumo global, especialmente com a expansão do café solúvel, das cápsulas e dos blends, redesenhando o posicionamento do país no mercado internacional”, alega Centurion.
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Novas fronteiras
No Brasil, o café arábica está concentrado principalmente em Minas Gerais, especialmente no Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Zona da Mata, em regiões de São Paulo, Paraná e Bahia (Chapada Diamantina e Oeste). A cultura pede altitude e clima ameno. Nos últimos anos, o arábica tem avançado para áreas de maior altitude, como partes do Cerrado e da Bahia, em locais onde não prevalecem extremos climáticos como geadas e calor excessivo.
O café robusta se concentra historicamente no Espírito Santo, maior produtor nacional, e em Rondônia, além de áreas em expansão na Bahia e Mato Grosso. Diferentemente do arábica, o robusta avança justamente para regiões mais quentes e de menor altitude, onde outras culturas enfrentam mais limitações, permitindo a ocupação de novas fronteiras agrícolas.
O robusta apresenta sabor mais forte e amargo, corpo mais pesado, quase o dobro da cafeína do arábica, notas terrosas e amadeiradas. “Mas o robusta de hoje não é mais o mesmo de 20 anos atrás. Melhoramento genético, pós-colheita mais sofisticada e surgimento de variedades especiais, com menos amargor, mais equilíbrio e até notas sensoriais mais refinadas podem mudar a percepção do robusta para o mercado no futuro”, diz o head da Ascenza.
Centurion acrescenta que, no Brasil, o consumidor médio está mais acostumado a um perfil de bebida mais intenso, em que o robusta cumpre um papel importante na composição. Nesse contexto, o avanço dessa variedade se explica pela produção no campo e pela dinâmica de mercado.
Como o robusta tem maior produtividade e custo mais baixo, ele funciona como um elemento de equilíbrio na cadeia e pode ajudar a conter a pressão de preços ao consumidor final, especialmente em momentos de alta do arábica. “Sustenta a oferta para a indústria e contribui diretamente para manter o café mais acessível nos supermercados, sem grandes mudanças perceptíveis no padrão de consumo da população”, diz o head da Ascenza Brasil.
Exportação
O arábica continua sendo um café de melhor qualidade, com sabor mais suave, complexo, notas frutadas, florais e doces, menor quantidade de cafeína e mais equilíbrio na acidez. A variedade é usada na produção de cafés especiais e, no mercado global, continua sendo o café com maior participação. “Responde por cerca de dois terços do consumo mundial, enquanto o robusta, mais presente na indústria e em blends, representa pouco mais de um terço”, explica Centurion.
De acordo com a Conab, no ano passado o Brasil exportou 40 milhões de sacas de café, 21% menos que o recorde de exportação registrado em 2024, de 50,5 milhões de sacas. Ainda segundo a Conab, a variedade arábica representa de 75% a 80% das exportações de café brasileiro, enquanto o robusta varia de 20% a 25%. Os principais mercados do café arábica brasileiro são Estados Unidos, Alemanha, que distribui o produto para a Europa, Itália, Japão e Bélgica. Estados Unidos e Alemanha consomem de 33% a 37% do café enviado para o mercado externo.
Os Estados Unidos também são o principal importador do café robusta brasileiro, ao lado de Vietnã, Rússia, Turquia, Indonésia e México, para o uso industrial de café solúvel, em cápsula, blend e reprocessamento.
Informações: Assessoria Ascenza



