De coletoras a guardiãs: como mulheres de comunidades tradicionais transformam o cerrado em renda

Com faturamento de R$ 921 mil em 2025, a Rede de Sementes Flor do Cerrado alia preservação ambiental à geração de renda digna em Mato Grosso do Sul

16/03/2026 às 15:49 atualizado por Redação - SBA
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Nas primeiras horas do dia, quando o Cerrado ainda guarda o frescor da madrugada, mulheres de comunidades tradicionais saem para o campo em busca de pequenas sementes que carregam um grande significado. Em suas mãos, elas representam renda, conservação ambiental e a continuidade de um modo de vida profundamente ligado ao bioma. Elas fazem parte do projeto Rede de Sementes Flor do Cerrado, que em 2025 mobilizou R$ 921 mil na compra de sementes nativas, beneficiando diretamente comunidades tradicionais em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul.

A iniciativa, coordenada pelo Instituto Taquari Vivo, envolveu 449 coletores, entre quilombolas, assentados e indígenas, e viabilizou a comercialização de 16 toneladas de sementes nativas, distribuídas em 148 espécies diferentes utilizadas em ações de restauração ambiental.

Moradora da comunidade quilombola Furnas da Boa Sorte, no município de Corguinho, Elaine é formada em pedagogia e serviço social e atua como funcionária pública municipal. Além do trabalho na escola, ela também se dedica à mobilização comunitária e à coleta de sementes nativas do Cerrado. 

“Cada semente coletada carrega um significado que vai além da restauração ambiental. “Estamos transformando o conhecimento tradicional do Cerrado em restauração e renda digna para nossa comunidade, semeando resistência, cultivando vida e colhendo o futuro do bioma em cada semente nativa.”

O que mais a motivou foi o potencial de transformação para as mulheres da comunidade. “Pensei que poderia ser uma oportunidade para as mulheres daqui. Se desse certo, elas teriam uma renda e ainda ajudariam a manter o nosso território vivo”, afirma.

Hoje, a rotina de Elaine se divide entre o trabalho na escola e as atividades da rede de sementes, que incluem reuniões comunitárias, mobilização e a coleta no campo. Para ela, participar da rede foi a realização de um sonho coletivo.

“A gente nunca imaginava que nossa comunidade participaria de algo tão importante. Além de gerar renda, a rede fortalece a autonomia e a autoestima das pessoas e transforma a forma como nos relacionamos com o território”.

Assim como Elaine, a pequena produtora rural Jânia Batista Malaquias, da comunidade quilombola Santa Tereza, no município de Figueirão, também encontrou na coleta de sementes uma nova possibilidade de renda e aprendizado.

Ela conheceu a atividade após participar de um curso de capacitação e decidiu apostar na iniciativa. “O que me motivou foi a oportunidade de aumentar a renda e também o amor pela natureza”, conta.

Entre o trabalho no sítio, as tarefas domésticas e as coletas no campo, Jânia afirma que a atividade trouxe mais entusiasmo para o cotidiano. “Eu me sinto mais animada. Além da renda complementar, a experiência também fortaleceu a união entre as mulheres da comunidade, todas nós ganhamos mais espaço e nos unimos mais. Saber que o meu trabalho contribui para a preservação ambiental é motivo de orgulho”, concluiu a coletora.

Restauração ambiental

Segundo a supervisora de projetos do Instituto Taquari Vivo, Letícia Reis, a iniciativa demonstra que a recuperação ambiental precisa caminhar junto com a inclusão social.

“Quando fortalecemos redes de coletores, estamos criando uma cadeia de restauração que valoriza quem vive no território e conhece o bioma. Essas comunidades não apenas fornecem sementes, elas são protagonistas na conservação do Cerrado e na recuperação de áreas degradadas”, destaca.

Parte desse trabalho já se reflete em ações concretas de restauração. Um dos marcos recentes foi a implantação de 40 hectares de plantio no Núcleo São Thomaz, dentro do Parque Estadual Nascentes do Rio Taquari, entre os municípios de Costa Rica e Alcinópolis.

A área recebeu quatro toneladas de sementes nativas e marca o início de um processo de recuperação ambiental que deve alcançar cerca de 378 hectares nos próximos anos, contribuindo para proteger nascentes, reduzir processos erosivos e melhorar a qualidade da água da bacia do Taquari, impactos que também beneficiam o Pantanal.

 

Informações: Assessoria de Imprensa