Maior volume e menor faturamento com o couro bovino

O desempenho recorde nos embarques não se reflete em maior faturamento. A resposta está naquilo que o Brasil deixou de vender

14/04/2026 às 08:02 atualizado por Redação - SBA
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O mercado de couro bovino iniciou o ano devagar e vem ganhando ritmo. Os preços subiram na semana no Brasil Central. Segundo a Scot Consultoria, o couro verde de primeira linha está cotado R$0,75/kg, e o couro comum está cotado em R$0,65/kg, alta de 15,4% e 18,2%, respectivamente. No Rio Grande do Sul, a cotação está em R$1,00/kg, alta de 11,1%. Preços à vista e livres de impostos. Essa valorização decorre de uma menor oferta, consequência da redução no volume de bovinos abatidos. A estimativa de abate no primeiro trimestre, calculada com base no Sistema de Inspeção Federal (SIF), é de 9,6 milhões de cabeças, queda de 3,8% em relação ao mesmo intervalo de 2025.

A exportação em março foi de 58,7 mil toneladas, o maior registro para o mês na série histórica. Esse desempenho representa um crescimento de 4,3% na comparação com março de 2025 e uma retração de 4,2% em relação a fevereiro de 2026. A composição da exportação foi majoritariamente de wet-blue (70,5%), seguido por couro salgado (20,9%), couro acabado (5,9%), crust (2,0%) e aparas (0,8%).

Figura 1.
Participação do couro por categoria, por volume exportado, de janeiro de 2025 a março de 2026.


Fonte: Secex, CICB / Elaborado por Scot Consultoria

O faturamento obtido com a exportação em março foi de 94,3 milhões de dólares, um recuo de 7,3% na comparação feita ano a ano e de 1,9% na comparação com fevereiro de 2026. O faturamento por categoria mostra uma concentração distinta da observada no volume, com o couro acabado respondendo por 41,8% do faturamento, o wet-blue por 40,3%, o crust por 11,1%, o couro salgado por 6,6% e as aparas por 0,1%.

Figura 2.
Participação do couro por categoria, e por faturamento nas exportações, de janeiro de 2025 a março de 2026.


Fonte: Secex, CICB / Elaborado por Scot Consultoria

A análise do desempenho de longo prazo revela uma dinâmica de descolamento entre volume exportado e receita gerada. Nos últimos treze anos, o faturamento com a exportação caiu 61,9%, e o volume embarcado subiu 28,5%. Esse descompasso é explicado pela alteração na composição da pauta exportadora, com significativa redução da participação de produtos com maior valor agregado.

Figura 3.
Comparação entre o volume exportado (mil toneladas) e faturamento (milhões de dólares) nos últimos 13 anos.

Fonte: Secex, CICB / Elaborado por Scot Consultoria

A parcela representada pelo couro acabado na exportação caiu de 16,7%, em 2014, para 7,1% em 2025, uma perda de 9,6 pontos percentuais. No mesmo período, a fatia do wet-blue também caiu, passando de 77,9% para 69,3%, um declínio de 8,6 pontos percentuais. Em contrapartida, a participação do couro salgado apresentou expansão acentuada, saindo de 1,0% para 21,2%, um incremento de 20,2 pontos percentuais.

Com relação ao faturamento, o couro acabado respondia por 55,2% da receita obtida com as vendas externas em 2014, enquanto o wet-blue representava 39,0%, o crust 5,3%, o couro salgado 0,3% e as aparas 0,2%.

Em 2025, a participação do couro acabado no faturamento recuou para 47,3%, uma redução de 7,9 pontos percentuais. A parcela do wet-blue manteve-se relativamente estável, com redução de 0,8 ponto percentual, alcançando 38,2%.

As categorias com menor processamento ampliaram a contribuição na composição da receita. O crust avançou de 5,3% para 9,3%, um acréscimo de 4,0 pontos percentuais, e o couro salgado elevou sua fatia de 0,3% para 5,0%, crescimento de 4,7 pontos percentuais. A participação das aparas não foi significativa.

Essa modificação na participação do faturamento, com encolhimento da representatividade do produto de maior valor agregado e expansão da importância relativa de estágios intermediários, ocorre em um contexto de queda expressiva da arrecadação com a exportação.

A menor presença relativa do couro acabado, que detém cotação mais elevada por unidade, e o correspondente aumento da participação de itens de menor cotação relativa na pauta de receitas intensificam o descolamento entre o fluxo de mercadorias e a geração de divisas. O movimento evidencia, portanto, que o Brasil tem ampliado a exportação de matéria-prima em estágios de processamento menos avançados, o que pressiona negativamente o faturamento mesmo diante de volumes recordes embarcados.

Para entender o valor agregado pelo produto acabado, os preços médios, por tipo de couro em março de 2026 foram de:

• Aparas: U$0,30/kg

• Couro salgado: U$0,51/kg

• Wet-blue: U$0,92/kg

• Crust: U$9,13/kg

• Acabado: U$11,43/kg

 

Informações: Scot Consultoria