Mudanças climáticas já pressionam a pecuária brasileira

Pesquisa da Esalq-USP mostra que os efeitos do clima extremo já reduzem a eficiência da pecuária brasileira

23/12/2025 às 09:11 atualizado por Redação - SBA
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A pecuária brasileira enfrenta um desafio sem precedentes: adaptar-se a um clima cada vez mais instável, marcado por ondas de calor intensas, secas prolongadas e chuvas imprevisíveis. Os impactos das mudanças climáticas sobre bois, porcos e galinhas já não são uma previsão distante, mas uma realidade que ameaça a produtividade, o bem-estar animal e até a segurança alimentar.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), com base em 12 experimentos realizados em diferentes países e condições climáticas, aponta que o gado leiteiro está entre os animais mais afetados pelas alterações do clima no Brasil.

“A vaca leiteira tem metabolismo muito intenso, e a própria produção de leite gera grande quantidade de calor interno. Quando somamos isso ao calor ambiental, o desafio térmico aumenta bastante. Por isso, reduções de 20% a 30% na produção de leite em períodos críticos são comuns”, explica Robson Silveira, pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Ambiência (Nupea) da Esalq-USP, que participou do estudo.

Segundo Silveira, quando os animais enfrentam calor elevado, a primeira resposta é reduzir o consumo de alimento para diminuir o calor metabólico. Esse ajuste altera o metabolismo e faz com que uma parcela significativa da energia, que normalmente seria destinada à produção de carne, leite ou ovos, seja desviada para a termorregulação.

De acordo com Adriana do Carmo, professora de melhoramento genético da Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG (Universidade Federal de Goiás), os animais mais afetados tendem a ser aqueles menos tolerantes ao calor e à sazonalidade das pastagens. No entanto, ela ressalta que até raças adaptadas aos trópicos, como as zebuínas, sofrem quando expostas a eventos climáticos extremos por longos períodos.

Beatriz Garcia do Vale, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da UFV (Universidade Federal de Viçosa), reforça que animais em fase de lactação e de alta produção são, em geral, mais sensíveis ao estresse térmico, devido à elevada termogênese metabólica.

Em contrapartida, segundo Beatriz, raças naturalizadas brasileiras apresentam maior tolerância ao calor do que bovinos Bos taurus (europeus), em razão de adaptações anatomorfofisiológicas, como cor de pele e pelame, espessura da pele, capacidade de sudorese, espessura de toucinho e condutância térmica.

Robson Silveira acrescenta que análises globais indicam que pequenos ruminantes do hemisfério Norte serão os mais impactados pelas mudanças climáticas. As projeções apontam que, até 2100, esses animais podem apresentar aumento de até 68% na frequência respiratória em relação aos ruminantes do hemisfério Sul.

A frequência respiratória — número de movimentos respiratórios por minuto — é utilizada em estudos de zootecnia como indicador fisiológico de estresse térmico, pois se eleva quando o animal precisa dissipar calor para manter o equilíbrio interno.

Galinhas de postura e codornas também demonstraram alta sensibilidade térmica, com possibilidade de aumento de até 40 movimentos respiratórios por minuto. Em contraste, cabras e bovinos de corte zebuínos, como o Brahman, apresentaram plasticidade fenotípica, praticamente sem elevação da frequência respiratória nas projeções para 2050, 2075 e 2100.

Pontos de atenção

Animais que buscam sombra com frequência, apresentam respiração ofegante constante ou adoecem com recorrência podem estar em situação de estresse térmico. Nos últimos anos, foram relatadas mortes de animais e até de rebanhos inteiros em diversos países durante ondas de calor ou episódios de frio extremo.

No Brasil, as ondas de calor registradas em 2023 e 2024, especialmente no Sul e no Centro-Oeste, resultaram na morte de bovinos por hipertermia e em quedas bruscas na produção de leite. No extremo oposto, episódios de frio intenso no Sul levaram à morte de bezerros por hipotermia após geadas consecutivas.

Segundo Jansller Genova, professor do Departamento de Zootecnia da UFV, indicadores produtivos, como redução do ganho de peso, fisiológicos, como aumento da frequência respiratória, e reprodutivos ajudam a identificar quando o rebanho está em situação crítica.

Além dos efeitos diretos sobre os animais, há impactos indiretos, como a degradação de pastagens e o aumento da pressão sanitária, com maior proliferação e disseminação de microrganismos patogênicos e doenças. O estresse hídrico também compromete a vegetação destinada à alimentação dos animais, dificultando a digestão e resultando em queda no desempenho produtivo e reprodutivo dos rebanhos.

Para o futuro

Robson Silveira destaca que o aumento da temperatura média e a maior frequência de ondas de calor, que provocam estresse térmico contínuo, devem ser os fatores de maior impacto sobre os rebanhos nos próximos anos. Modelos conservadores projetam um aumento de até 3 °C até o fim do século, cenário no qual a homeostase de aves, codornas e vacas leiteiras já se mostra seriamente comprometida nas simulações.

Ao analisar dados do semiárido nordestino, os pesquisadores observaram que o ambiente térmico teve menor impacto sobre as respostas fisiológicas de ruminantes já adaptados a esse clima. No entanto, a raça influenciou a resposta: vacas Girolando mostraram-se mais sensíveis ao calor do que vacas Sindi e ovelhas Morada Nova, ambas adaptadas às condições equatoriais.

Esses resultados reforçam a importância de valorizar e preservar raças locais no Brasil, que apresentam maior capacidade de suportar calor, restrição nutricional e desafios sanitários.

Como proteger o rebanho

As estratégias de adaptação devem ser específicas para cada espécie e sistema de produção. Na pecuária leiteira, uma alternativa tem sido a combinação de cruzamentos com raças locais e investimentos em instalações que promovam conforto térmico, como ventiladores, aspersores e nebulizadores.

Jansller Genova também destaca a importância de um sistema nutricional bem planejado, com acesso irrestrito à água de boa qualidade, aliado ao planejamento forrageiro e ao manejo adequado do solo e das pastagens.

“O manejo adaptativo dos rebanhos já não é apenas uma recomendação, mas uma necessidade. O clima está mudando rapidamente, e os sistemas de produção precisam acompanhar esse ritmo. Quem não se adaptar tende a enfrentar perdas crescentes”, alerta Adriana do Carmo, professora da UFG (Universidade Federal de Goiás).

Fonte: MILKPOINT