Agroicone: Plano Safra 2026/27 foi o possível, mas há preocupações
São Paulo, 1 - A sócia-gerente da Agroicone e integrante da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Leila Harfuch, avaliou que o Plano Safra 2026/27 foi o "possível" diante de Selic ainda elevada, endividamento dos produtores e inadimplência crescente. Ainda assim, ela apontou preocupação com a perda de prioridade do seguro rural e com a redução de recursos em linhas voltadas à transição para sistemas produtivos mais sustentáveis e resilientes.
"Avaliamos como o Plano Safra possível, considerando o cenário bastante desafiador de taxa de juros Selic ainda elevada, endividamento do produtor rural e inadimplência crescente", afirmou Harfuch. "Entretanto, o que preocupa é o cenário futuro do agro, com a subvenção do seguro rural caindo e a cada ano menor área segurada."
Segundo ela, o setor entra na nova safra com maior exposição ao risco climático, em meio ao desafio associado ao El Niño, e com menor apoio em instrumentos de gestão de risco. Para Harfuch, a política de crédito reduziu a disponibilidade de recursos para a transição a sistemas produtivos sustentáveis e mais resilientes, enquanto o seguro rural segue sem prioridade.
O Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial prevê R$ 525,1 bilhões em financiamentos para médios e grandes produtores, alta de 1,7% ante o ciclo anterior. Na avaliação da Agroicone, porém, a composição do programa mostra fragilidades. Harfuch observou que os recursos de custeio caíram em relação à safra passada e que o aumento em investimentos decorre principalmente de programas fora das linhas tradicionais, como EcoInvest e operações via Finep.
"Nas linhas de investimento tradicionais, o volume anunciado reduziu. Apenas o Pronamp aumentou 5% em relação à safra passada", disse. Segundo Harfuch, o custo do crédito continua elevado, embora as taxas de juros tenham recuado, em geral, entre 0,5 e 1,5 ponto porcentual. Ela também citou aumento da subvenção econômica, mas ponderou que os custos seguem altos para o produtor.
Na avaliação da Agroicone, o endividamento e a inadimplência crescente têm afetado o acesso efetivo ao crédito. Harfuch afirmou que, embora os dados finais da safra 2025/26 ainda não estejam fechados, a consultoria observa redução de cerca de 20% no valor concedido em custeio e investimento, considerando todos os portes de produtores. Para ela, instrumentos de gestão de risco, como o seguro rural, poderiam contribuir também para melhorar o acesso ao financiamento.
A Agroicone também vê insuficiência nas linhas ligadas à sustentabilidade. Harfuch citou redução de 24% no volume disponibilizado ao RenovAgro e queda de 14% nos recursos destinados à recuperação de áreas degradadas, para R$ 1,8 bilhão. Segundo ela, o volume é baixo diante da necessidade de financiar a adaptação produtiva e climática da agropecuária.
A sócia-gerente da Agroicone afirmou que o segundo leilão do EcoInvest, voltado à recuperação de terras degradadas, tem expectativa de mobilizar mais de R$ 30 bilhões, mas ponderou que o programa possui condicionantes que podem limitar o acesso. Na avaliação dela, as informações divulgadas até agora indicam maior direcionamento a projetos de grande porte, o que pode dificultar a participação de médios produtores.
"Os médios produtores podem ter dificuldades em realizar a transição produtiva, o que é muito preocupante", afirmou. Para Harfuch, mesmo em um cenário de endividamento elevado, a redução dos investimentos sustentáveis prejudica a visão de longo prazo da agricultura e pode tornar o setor menos resiliente às mudanças climáticas.
Ela também avaliou que o desenho atual das taxas e das linhas ainda fica aquém do necessário para aliviar o aperto financeiro do produtor. "O produtor vai continuar pressionado, pois os custos do crédito continuam elevados e com endividamento ainda não equacionado", disse. Segundo Harfuch, esse quadro pode afetar a decisão de adoção de tecnologias no plantio para reduzir custos, ampliando a exposição ao risco climático e afetando a perenidade da produção.
Para a Agroicone, o ponto central daqui para frente é integrar crédito, seguro rural, sustentabilidade e gestão de riscos. Harfuch defendeu uma política agrícola com visão estratégica para riscos climáticos, ambientais e de mercado. Segundo ela, sistemas produtivos mais resilientes reduzem a exposição a eventos climáticos menos catastróficos, enquanto o seguro rural é necessário para proteger o produtor de riscos extremos.
"O Plano Safra precisa trazer no curto prazo essa visão estratégica de longo prazo para a agropecuária brasileira", afirmou.



