Aversão doméstica a risco acentua perda do Ibovespa, em baixa pelo 3º dia

13/05/2026 às 17:58 atualizado por Luís Eduardo Leal - Estadão
Siga-nos no Google News

Um mês depois das máximas históricas de 14 de abril, então no intradia a 199 mil e no fechamento a 198,6 mil, o Ibovespa segue em correção após ter ficado perto do limiar de 200 mil pontos. Nesta quarta-feira, 13, fechou em queda de 1,80%, aos 177.098,29 pontos, ainda no menor nível desde 20 de março, tendo tocando mínima da sessão a 176.787,09 nesta quarta-feira. Assim, nas 19 sessões que sucederam os recordes de 14 de abril, o índice da B3 obteve ganhos em apenas cinco, encadeando nesta quarta a terceira perda, duas das quais de mais de 1%. O giro financeiro foi reforçado a R$ 66,4 bilhões, em dia de vencimento de opções sobre o índice.

Na semana, o Ibovespa recua 3,81%, colocando as perdas do mês a 5,46%. No ano, os ganhos são limitados agora a 9,91%, após terem chegado a 23,29% em 14 de abril.

Em mais um dia de correção aguda, Vale ON, principal ação da carteira teórica, foi a exceção entre os papéis de primeira linha, em alta de 1,26% no fechamento. Petrobras ON e PN cederam, pela ordem, 2,47% e 2,43%, enquanto a queda entre as ações do setor financeiro chegou a 2,63% em Banco do Brasil ON. Na ponta ganhadora do Ibovespa, Braskem (+2,86%), Usiminas (+2,12%) e Hapvida (+1,92%). No lado oposto, Localiza (-6,40%), Assaí (-5,70%), Smart Fit (-4,96%) e C&A (-4,83%).

No meio da tarde, a correção do índice, que resistia em torno dos 180 mil pontos mais cedo, veio a se aprofundar com a notícia do site Intercept Brasil associando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, na intermediação de recursos para o filme biográfico sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O relato veio no mesmo dia em que nova pesquisa Genial/Quaest confirmou, mais uma vez, empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o filho do ex-presidente.

"O áudio vazado de Flávio Bolsonaro, sem dúvida, teve efeito não apenas na queda da Bolsa, mas também para juros futuros e dólar, em alta, por conta da aversão a risco", diz Bruno Perri, economista-chefe, estrategista e sócio-fundador da Forum Investimentos. "O assunto Master é muito forte, ligado à percepção de corrupção no Brasil, e até agora não vinha sendo associado explicitamente à família Bolsonaro", acrescenta, referindo-se indiretamente à preferência do mercado por um candidato de oposição - no caso, o que tem mostrado mais chance de derrotar o governo na eleição de outubro.

Como pano de fundo do ajuste, contudo, permanece o mesmo cenário de menor apetite por deslocamento de recursos de mercados com maior exposição à tecnologia, em especial Estados Unidos, para emergentes. Prevalece ainda um grau maior de incerteza em relação aos efeitos da alta do petróleo sobre a inflação global, o que limita o escopo de cortes de juros, inclusive no Brasil - mantendo, dessa forma, a renda fixa como opção preferencial em relação ao risco da variável.

"Havia, antes, um 'orçamento' de cortes que presumia Selic na casa de 12% no fim de 2026. Agora, a expectativa é de que fique em algo como 13,75% ou 14% para o mesmo intervalo", diz Frederico Sampaio, CIO da Franklin Templeton Brasil. Ele acrescenta que o fluxo estrangeiro moveu o Ibovespa para cima, em direção a máximas históricas, desde a rotação de ativos a partir dos Estados Unidos, no fim do ano passado e que se espraiou para 2026, agora em reversão. "E não apenas de volta para Estados Unidos onde o Nasdaq e S&P 500 têm renovado recordes, em sentido contrário ao do Ibovespa, mas também para outros mercados, como o da Coreia do Sul, onde o setor de tecnologia tem peso na Bolsa", acrescenta Sampaio.

Ele observa que, ao se considerar a participação relativa do Brasil no MSCI, não houve um exagero de interesse do estrangeiro por ativos locais no momento de escalada. Por outro lado, a exposição ao setor de energia, que representa cerca de 20% da nossa Bolsa, evitou um mergulho ainda mais profundo do Ibovespa. Contudo para além de Petrobras, Vale e bancos, que formam o cerne do apetite estrangeiro por ações no Brasil, o retrato fica ainda mais negativo quando se considera ações de menor capitalização de mercado, como as de varejo, associadas ao ciclo doméstico. "Considerando métricas como P/L, as ações continuam descontadas, baratas, mesmo levando em conta papéis que andaram mais no ano, como os da própria Petrobras, e por diferentes critérios e parâmetros de análise."

Em meio ao grau maior de cautela com relação também aos emergentes, o dólar voltou a ser negociado na marca de R$ 5 nesta quarta-feira, em alta de 2,31% no fechamento do segmento à vista. Na B3, as ações de empresas de varejo, como C&A, apresentaram forte oscilação neste meio de semana, com os investidores atentos aos impactos da medida provisória assinada na terça-feira pelo presidente Lula, que visa zerar a tributação federal sobre produtos de até US$ 50 em plataformas internacionais, a chamada "taxa das blusinhas", aponta Luise Coutinho, head de produtos e alocação da HCI Advisors.

"Há um 'pacote de bondades' em andamento no governo, com atuação também em desonerações da gasolina para conter a alta de preços que chega de fora, produzindo efeito para uma situação fiscal que já não era boa, e que já deixava o mercado ressabiado em ano eleitoral", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos.

Nesta tarde, o governo federal estimou uma despesa mensal de R$ 272 milhões para cada R$ 0,10 de subvenção anunciada para o litro de gasolina. No caso do litro do diesel, o custo por mês foi calculado em R$ 492 milhões para cada R$ 0,10 de subvenção. O dispêndio será compensado pela receita da União por meio de dividendos, royalties e participação ter crescido com o aumento da cotação do petróleo no mercado internacional.

Contudo, o Executivo alega que haverá neutralidade fiscal. Foi anunciado nesta tarde que até R$ 0,8925 por litro da gasolina serão subsidiados, em portaria a ser regulamentada. Além disso, foi divulgado também que até R$ 0,3515 por litro de diesel serão subsidiados.