Buainain: 'Agro precisa assumir radicalmente agenda da sustentabilidade'
14/05/2026 às
17:33 atualizado por
Luciana Dyniewicz, Tania Rabello e Isadora Duarte - Estadão
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"O agronegócio precisa assumir radicalmente a agenda da sustentabilidade. Assumir radicalmente significa enfrentar a questão do desmatamento com muita seriedade", disse o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Centro de Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente Antonio Marcio Buainain.
Em palestra no São Paulo Innovation Week (SPIW), nesta quinta-feira, 14, Buainain destacou essa medida entre as necessárias para mudar a imagem de "vilão" do agro brasileiro no exterior.
Maior festival global de tecnologia e inovação, o SPIW é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
No painel Agro: herói ou vilão? O Brasil que o Mundo não Entende, Buainain destacou que a sustentabilidade mudou de lugar na dinâmica do setor, passando a ser um condicionante de competitividade. Por isso, diz o professor, o agro precisa combater não só o desmatamento ilegal, mas o legal também. "As lideranças do setor têm de entender isso."
O pesquisador acrescentou que, além da questão ambiental, o agro precisa estar atento também às populações originárias. "A situação dos povos indígenas não é diretamente decorrente da dinâmica do agro, mas tem a ver com ela. Não podemos colocar o agro em oposição aos povos indígenas. O agro rico e pujante tem de ter a responsabilidade de dar voz de proteção a uma população marginalizada."
Para Buainain, o setor precisa abandonar a lógica defensiva e reconhecer problemas estruturais que ainda persistem. "Precisa ter uma mudança de cultura, de visão. Como trazer os que ficaram para trás? Como corrigir os erros? Mas seguimos numa dinâmica simplesmente de crescimento", afirmou.
O professor criticou o discurso recorrente de que os ganhos de produtividade eliminariam a necessidade de expansão territorial. "Não adianta a gente falar que a nossa produtividade não permite que a gente desmate. Permite. Modernizamos a agricultura, mas continuamos ampliando a fronteira. E essa ampliação traz uma série de contradições, como desmatamento ilegal."
Buainain afirmou ainda que parte relevante das lideranças do setor continua excessivamente focada na expansão dos negócios, mesmo diante do discurso de maior eficiência produtiva. "A grande preocupação que vejo nas lideranças do setor é continuar crescendo."
Ao citar a fala de representantes da SLC Agrícola durante outro painel no mesmo evento, ele ironizou o discurso de não abertura de novas áreas para a agricultura. "Quando o diretor da SLC dizia que não quer crescer em área... antes plantavam 600 mil hectares e diziam que não iam expandir; hoje plantam 850 mil hectares. Agora dizem novamente que não precisam crescer. Mas eles vão crescer", criticou. Para Buainain, o setor precisa equilibrar produtividade, inclusão social e responsabilidade ambiental para construir uma narrativa mais consistente dentro e fora do Brasil.
No mesmo painel, os especialistas destacaram que o agro brasileiro é heterogêneo e pode ser vilão e herói ao mesmo tempo. O diretor da área agroambiental da Fundação Dom Cabral e ex-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito, disse que nenhum outro país oferece produtos alimentares suficientes para que seus cidadãos possam comer um prato nutritivo por R$ 25, como ocorre no Brasil. "Nesse caso, o agro é herói. Mas, quando se vê o desmatamento e a grilagem na Amazônia, o agro é vilão."
Britto afirmou ainda que, nos três anos em que liderou a Abag, sua equipe fazia pesquisas trimensais sobre a percepção do Brasil no exterior. Enquanto praticamente não havia menções ao agro brasileiro nas redes sociais, abundavam as críticas ao desmatamento e às queimadas realizadas aqui. Lembrando uma fala da ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, ele destacou que a Amazônia preservada insere o Brasil no mundo. "Se a Amazônia é bem tratada, nem existe a discussão de o agro ser vilão ou herói."
Diretor de ESG do Itaú BBA, João Adrien destacou que o agro brasileiro sempre se adaptou às tendências de mercado e que, agora, precisa se adaptar à agenda sustentável. Disse também que a preocupação global com a sustentabilidade abre oportunidades para o País.
"A discussão sobre mudanças climáticas pode impactar a vida do produtor rural, mas ela gera mais custo a países que dependem de combustíveis fósseis. Para nós, no Brasil, pode ser positiva. A lei do biocombustível do futuro, por exemplo, aumentou a demanda por milho e soja, e isso está segurando os preço desses produtos hoje. Essa lei decorre da agenda ESG. Temos que abraçar essa agenda, porque podemos oferecer insumos pra uma nova economia."



