Dólar cai 0,76% com correção em dia positivo para divisas emergentes
Após dois pregões rodando acima de R$ 5,20, nos maiores níveis desde fins de março, o dólar à vista fechou esta sexta-feira, 3, em queda de 0,76%, a R$ 5,1689, com mínima de R$ 5,1658. Operadores afirmam que o ambiente favorável a divisas emergentes no exterior e a recuperação do apetite pela bolsa doméstica, após dados fracos da produção industrial no Brasil aumentarem as apostas em corte adicional da taxa Selic, abriram espaço para que o real se recuperasse das perdas recentes.
Com a ausência de negócios nas bolsas em Nova York e no mercado de Treasuries - fechados em razão da antecipação do feriado de 4 de julho nos EUA -, a liquidez nesta sexta-feira foi reduzida, o que pode ter exacerbado os movimentos da taxa de câmbio. Em todo caso, com o tombo, o dólar praticamente zerou a alta na semana (0,03%). A moeda americana avança 0,11% frente ao real nos três primeiros pregões de julho, depois de valorização de 2,38% em junho.
Para o especialista em investimentos Bruno Shahini, da Nomad, o movimento do câmbio "reflete principalmente uma correção técnica", após a rodada recente de depreciação do real. "No cenário doméstico, o único dado relevante foi a produção industrial de maio, que veio abaixo do esperado, reforçando a percepção de desaceleração, na margem, da atividade econômica", afirma Shahini.
Referência do comportamento da moeda americana, o índice DXY operou ao redor da estabilidade, pouco abaixo dos 100,900 pontos. O iene exibiu queda de mais de 0,10% frente ao dólar, o que estimula apostas em eventual intervenção do Banco do Japão. Graças sobretudo ao tombo de quinta, após dados aquém do esperado da geração de emprego nos EUA em junho, o Dollar Index termina a semana com perda de 0,50%.
Para o estrategista de câmbio Francesco Pesole, do banco ING, o payroll de junho torna muito improvável a possibilidade de o mercado voltar a projetar duas altas de juros nos EUA neste ano, embora não tenha sido suficiente para ensejar uma "reprecificação" maior das expectativas.
"Os mercados ainda podem manter expectativas de pelo menos um aumento até a divulgação do CPI, em 14 de julho", afirma, em nota, Pesole, em referência ao índice de inflação ao consumidor nos EUA em junho. "Embora os dados reforcem nossa visão de baixa do dólar no segundo semestre, não vemos o DXY entrando em uma tendência sustentada de queda. O DXY pode se estabilizar na faixa entre 100,000 e 101,500 pontos nas próximas semanas."
O gestor de portfólio da Azimut Brasil Wealth Management Marcelo Bacelar pontua que, antes mesmo da divulgação do payroll de junho, já via um mercado de trabalho acomodado, com crescimento médio dos salários abaixo da inflação. Bacelar vê possibilidade de que haja uma redução das apostas em alta de juros pelo Fed até o fim do ano, em caso de leitura benigna da inflação ao consumidor.
"Isso pode levar a uma valorização de divisas emergentes, mas eu estou neutro em relação ao real. O carrego ainda é elevado, mas pode cair com cortes adicionais da Selic. Além disso, o petróleo recuou bastante e a questão política deve pesar cada vez mais", afirma o gestor, ressaltando que as últimas pesquisas eleitorais atestaram o enfraquecimento da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que teve atritos recentes com Michele Bolsonaro, mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para Bacelar, os indicadores domésticos mais recentes - IPCA-15 de junho abaixo das expectativas e o Caged de maio com geração menor de vagas do que o esperado - sugerem que o Comitê de Política Monetária (Copom) pode ter espaço para reduzir mais a taxa básica. "Mais um dado de inflação comportado pode reforçar a tendência de continuidade do ciclo de cortes dos juros, o que é negativo para a moeda", afirma.



