Dólar fecha em baixa de 1,63% com redução da aversão global ao risco
Apesar do recuo nesta segunda, a moeda acumula valorização de 1,87% em março, depois de queda de 2,16% em fevereiro. No ano, as perdas são de 4,72%
Alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, o dólar mergulhou no mercado local nesta abertura de semana e fechou a segunda-feira, 16, abaixo da linha de R$ 5,25. A queda dos preços do petróleo, na expectativa de aumento do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz, abriu espaço para recuperação de ativos de risco. O real figurou no grupo das três divisas emergentes que mais avançaram em relação ao dólar.
Operadores lembram que na última sexta-feira, diante temores de uma escalada da guerra no Oriente Médio no fim de semana, investidores optaram por aumento das posições cambiais defensivas. Sem agravamento do conflito, houve nesta segunda um desmonte das operações de hedge, abrindo espaço para uma recuperação mais forte do real.
Com mínima de R$ 5,2524 à tarde, em sintonia como o exterior, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 1,63%, a R$ 5,2298, após avanço de 3% nos últimos dois pregões, quando superou R$ 5,30 e atingiu o maior valor de fechamento desde 21 de janeiro. Apesar do recuo nesta segunda, a moeda acumula valorização de 1,87% em março, depois de queda de 2,16% em fevereiro. No ano, as perdas são de 4,72%.
"Estamos vendo um alívio na percepção de risco lá fora, com o petróleo, que é o principal 'driver' do mercado atualmente, voltando a cair. A bolsa responde positivamente, e o dólar recua frente ao real", afirma o analista Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora.
O contrato do Brent para maio fechou em queda de 2,84%, mas a cotação do barril permanece acima dos US$ 100 e acumula valorização de quase 40% em março. O presidente Trump voltou a exortar aliados europeus a contribuir para restabelecer o tráfego de embarcações pelo Estreito de Ormuz, por onde é escoada cerca de 20% da oferta global da commodity. Trump ainda disse que os EUA terão acesso ao estreito "muito em breve" e que no Irã há pessoas "dispostas a dialogar".
Após ter superado os 100,000 pontos pela primeira vez desde novembro de 2025 na sexta-feira, o índice DYX - que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes - recuava 0,57% quando o mercado local fechou, ao redor dos 99,785 pontos, após mínima aos 99,660 pontos. O Dollar Index avança 2,20% em março e 1,53% no ano.
"O real acompanhou muito o mercado global. O índice DXY caiu com força e as moedas emergentes se valorizaram em relação ao dólar. Vimos declarações de Trump ao longo do dia sinalizando que o Irã estaria disposto a buscar um acordo", afirma o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo.
Do lado doméstico, operadores afirmam que os leilões de recompra de títulos pelo Tesouro Nacional contribuíram para o comportamento benigno real, ao abrir uma janela de liquidez a investidores e reduzir o estresse nos mercados de renda fixa.
É crescente a perspectiva de que o Comitê de Política Monetária (Copom) opte por iniciar na quarta-feira, 18, o ciclo de afrouxamento monetário de forma mais cautelosa, com um corte da Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano, em razão das pressões inflacionárias provocadas pela arrancada dos preços do petróleo. Há até apostas minoritárias de manutenção da taxa básica em 15%.
"Apesar da alta do petróleo, o cenário inflacionário no Brasil permanece benigno. Mas o Copom é extremamente cauteloso e tende a fazer um corte mais gradual da Selic", afirma Galhardo, da Análise Econômica. Mesmo com eventual redução da Selic, a "taxa vai permanecer muito elevada, sustentando um diferencial de juros muito favorável ao real. Até porque o Federal Reserve pode ter que manter os juros no nível atual por um período mais prolongado".
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, afirma que, caso o movimento recente do petróleo "se consolide como um novo choque de oferta, é plausível esperar um ambiente de fortalecimento do dólar" em relação às moedas globais, em especial o euro e a libra.
Já o impacto para o real tende a ser "mais ambíguo", segundo o diretor do Pine. De um lado, a alta do petróleo representa um ganho relevante nos termos de troca e eleva as receitas associadas ao setor petrolífero, o que pode contribuir, ao menos parcialmente, para a melhora da "dinâmica fiscal no curto prazo".
"Por outro lado, o real permanece uma moeda altamente líquida e sensível às condições globais de risco. Em momentos de aversão a risco, moedas de mercados emergentes tendem a sofrer depreciação, independentemente de seus fundamentos domésticos", afirma Oliveira.



