Dólar fecha praticamente estável, apesar de emprego mais fraco nos EUA

02/07/2026 às 17:50 atualizado por Antonio Perez - Estadão
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O dólar chegou a ensaiar queda firme frente ao real pela manhã, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior após a divulgação do relatório de emprego (payroll) dos EUA de junho, mas ganhou força ao longo da tarde e encerrou a sessão desta quinta-feira, 2, cotado a R$ 5,2083 (-0,04%). Na semana, acumula valorização de 0,79%.

Operadores afirmam que o ambiente doméstico, marcado pela percepção de piora do quadro fiscal e de desidratação da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), limita o fôlego do real - especialmente após o fim do chamado "trade do petróleo", dado mergulho dos preços da commodity com as negociações de paz entre EUA e Irã.

"O mercado local até tentou acompanhar o alívio externo, com o payroll mais fraco esfriando as apostas em alta de juros pelo Federal Reserve neste ano, mas acabou jogando a toalha", afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo. "Mesmo com fluxo cambial positivo, não há clima para apostar na queda do dólar, porque a sensação é de que o governo vai aumentar gastos de olho na eleição."

Depois de tocar mínima a R$ 5,1593 após a divulgação do payroll, o dólar começou a recuperar terreno, com ajustes intradia. No início da tarde, superou o nível de R$ 5,21 e registrou máxima de R$ 5,2197. A febre compradora arrefeceu logo em seguida, sem razão aparente, e a moeda passou a rondar a estabilidade.

Embora não tenham cravado um motivo para a arrancada pontual do dólar, analistas mencionaram desconforto com falas do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre a reforma tributária e até nova reportagem do site The Intercept Brasil sobre o financiamento do filme "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Em carta mensal a investidores, a Kinea Investimentos afirma que o ambiente externo mais desafiador, com perspectiva de eventual aumento dos juros nos EUA, agrava a percepção sobre os problemas domésticos, como a política fiscal expansionista. "Quando o real fica vulnerável, o câmbio vira o canal de transmissão externo da nossa fragilidade doméstica. Não temos exposição ao real no momento", afirma a gestora.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY caiu mais de 0,50% e furou o piso dos 101,000 pontos, com mínima aos 100,558 pontos. O Dollar Index recua cerca de 0,50% nos dois primeiros pregões de julho, após alta de mais de 2% no mês passado. No ano, avança pouco mais de 2,60%.

O payroll mostrou geração de 57 mil vagas de emprego em junho, abaixo da mediana das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de 110 mil. A taxa de desemprego caiu de 4,3% em maio para 4,2% em junho, sobretudo pela menor taxa de participação no mercado de trabalho, observa, em nota, o economista-chefe internacional do banco ING, James Knightley.

Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que as chances de uma elevação dos juros pelo Federal Reserve em setembro recuaram da casa de 64% para pouco mais de 50%. As expectativas para um aperto monetário em dezembro seguem acima de 70%. A leitura de um mercado de trabalho ainda sólido, apesar da geração de vagas aquém das estimativas, e a postura mais dura da nova direção do BC americano sustentam as apostas em juros maiores.

Para o economista do ING, a divulgação da inflação ao consumidor nos EUA em junho, no próximo dia 14, deve mostrar uma queda na comparação mensal, em razão do recuo dos preços da gasolina - o que provavelmente terá mais impacto "psicológico" nos investidores. "Continuamos a prever uma pausa prolongada nos juros pelo Federal Reserve, mais do que uma alta neste ano", afirma Knightley.