Ibovespa acompanha euforia global e renova recordes, com foco em EUA-Irã
Com a retirada de prêmios de risco em diferentes classes de ativos, na esteira da trégua de duas semanas entre EUA e Irã, o Ibovespa renovou máxima histórica intradia pela manhã nesta quarta-feira, 8, aos 193.759,01 pontos, e fechou o dia ainda em alta de 2,09%, aos 192.201,16 pontos, também em recorde para encerramentos, superando marcas que prevaleciam, pela ordem, desde 25 e 24 de fevereiro.
Foi o sétimo ganho consecutivo para o índice da B3, e o maior desde 31 de março, quando havia encerrado o mês com alta de 2,71% naquela sessão. É a maior série de avanços para o Ibovespa desde as 15 sessões entre 22 de outubro e 11 de novembro passado.
O giro financeiro desta quarta-feira chegou a R$ 41,8 bilhões, bem forte para um pregão sem vencimento de opções sobre o índice, como o desta quarta, em que agregou quase 4 mil pontos em relação ao fechamento anterior.
Na semana, o Ibovespa avança 2,21% e, em abril, sustenta ganho de 2,53% no agregado de cinco sessões. No ano, sobe 19,29%. O dólar teve queda de 1,01%, a R$ 5,1029, em dia de forte retração também para a curva do DI, acompanhando o exterior, com devolução de prêmios após a tensão global que se viu até a noite da terça-feira, quando se tomou conhecimento do entendimento provisório entre EUA e Irã.
Em Nova York, os principais índices de ações fecharam em alta de 2,85% (Dow Jones), 2,51% (S&P 500) e 2,80% (Nasdaq). Na B3, dentre as blue chips, apenas as ações de Petrobras (ON -4,42%, PN -3,92%) encerraram em baixa, refletindo a correção do petróleo na sessão. Principal ação do Ibovespa, Vale ON subiu 2,27% e, entre as maiores instituições financeiras, os ganhos chegaram a 5,00% em Bradesco PN. Na ponta ganhadora, Hapvida (+9,06%), Vamos (+7,91%) e Direcional (+7,88%). No lado oposto, além das duas ações de Petrobras, destaque para Prio (-5,49%), Brava (-3,38%) e Ultrapar (-3,17%).
Ante a distensão geopolítica, tanto o Brent como o WTI voltaram a ser negociados bem abaixo do limiar psicológico de US$ 100 por barril, neste meio de semana, acompanhando a expectativa pela reabertura do Estreito de Ormuz, essencial para a recuperação da oferta produzida na região do Golfo. No começo da tarde, os contratos futuros de petróleo pouco reagiram à notícia de que o tráfego de petroleiros pelo estreito foi completamente interrompido, segundo a agência iraniana Fars, após Israel violar termos do cessar-fogo e atacar o Líbano.
Dessa forma, o petróleo WTI para maio, negociado em Nova York, fechou em queda de 16,4% (US$ 18,54), a US$ 94,41 o barril, no menor nível desde 25 de março. Já o Brent para junho, em Londres, encerrou em baixa de 13,3% (US$ 14,52), a US$ 94,75 por barril, no menor nível desde 11 de março. Foram as maiores quedas em porcentual para ambas as referências desde abril de 2020, na pandemia de covid-19.
"Para abril, a trajetória dos preços do petróleo seguirá como principal variável de monitoramento", observa em nota Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil Wealth Management. "Em um cenário de arrefecimento das tensões geopolíticas, vislumbramos espaço relevante para descompressão dos ativos locais", acrescenta. "A elevada participação da Petrobras e de empresas do setor de exploração e produção na composição do Ibovespa contribuiu para um desempenho relativo superior do mercado brasileiro frente a pares globais". No ano, Petrobras ON ainda acumula ganho de 57,17% e a PN, de 51,23%, apesar do desempenho negativo de ambas as ações na semana e no mês, até aqui.
Carlier destaca também que o fluxo permaneceu robusto para a B3, mesmo com o aumento da percepção global de risco, com ingresso que já superam "com folga" o observado ao longo de 2025. "Mesmo diante do choque nos preços do petróleo, a entrada líquida no mês seguiu positiva", enfatiza.
Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, observa que, pela quarta vez, um ultimato de Trump foi revogado por ele mesmo pouco antes da expiração. A linha "volátil" que caracteriza o presidente dos Estados Unidos, em que alterna ameaças de "destruição sem precedentes" com "recuos abruptos", cria um ambiente de sobressaltos, "pânico e desconforto global", acrescenta Corano.
Como consequência, entre idas e vindas na retórica da Casa Branca, os preços dos ativos financeiros passam por fortes ajustes, refletindo a própria volatilidade na abordagem de Trump para as questões de segurança internacional, com reverberações econômicas imediatas que interferem na sua própria posição política, em especial com relação ao preço dos combustíveis, nos Estados Unidos e além.
Neste contexto, a ata do último encontro do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), divulgada na tarde desta quarta-feira, revelou que os participantes avaliaram que as implicações dos acontecimentos no Oriente Médio para a economia são incertas. Mesmo com a incerteza, termo repetido em diversos trechos do documento, a ata ressaltou que o comitê de política monetária do Fed segue atento aos riscos para ambos os lados do mandato do Fed.
O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou no período da tarde que, na atual situação, um cessar-fogo bilateral com os EUA ou mesmo negociações são "irracionais", ao alegar violações de cláusulas-chave da Proposta de 10 Pontos antes do início das conversas. Segundo ele, os EUA não cumpriram a cláusula referente ao cessar-fogo no Líbano - um compromisso ao qual o primeiro-ministro iraniano, Shehbaz Sharif, também se referiu - e quebraram a cláusula que proíbe qualquer violação adicional do espaço aéreo do país persa.
Por sua vez, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, disse no final da tarde que Trump não cumprirá o cessar-fogo se o Irã não fizer sua parte, e que o Líbano não foi incluído no entendimento sobre a trégua. "Houve mal-entendido com o Irã sobre a inclusão do Líbano", disse. "Nunca fizemos nenhuma promessa de que o Líbano estaria no cessar-fogo", enfatizou Vance.
"Cada vez mais a tendência é que eles EUA saiam desse risco de guerra e que se torne mais um conflito local entre Israel e Irã", diz Nicolas Gass, estrategista de investimentos e sócio da GT Capital.



