MBRF amplia uso de colágeno em alimentos e bebidas e mira novas aplicações

18/08/2026 às 11:34 atualizado por Leandro Silveira - Estadão
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A MBRF está ampliando o uso de proteínas em alimentos e bebidas ao levar o colágeno para categorias que tradicionalmente não têm esse ingrediente, como sucos, cafés, bebidas lácteas, massas, panificados e sobremesas. A movimentação é conduzida pela Gelprime, empresa que recebe investimento da MBRF, e tem como um dos primeiros exemplos o desenvolvimento de um suco natural de laranja com proteína de colágeno hidrolisado recém-lançado em parceria com a Prats.

Segundo as companhias, há outros projetos em desenvolvimento com clientes, em diferentes estágios de maturidade. "É um mercado bem inexplorado", afirma o diretor de Novos Negócios da MBRF, Rafael Braz, ao Broadcast Agro, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

A estratégia combina a expertise da Gelprime em colágeno com a estrutura de pesquisa e desenvolvimento (P&D) da MBRF.

As equipes trabalham de forma integrada para ajustar o ingrediente às características de cada produto e às condições industriais de cada cliente. "Eu tenho o meu P&D, que entende de formulações de alimentos, e tenho o P&D da Gelprime, que entende bastante do colágeno e dos ajustes finos que precisam ser dados, trabalhando com o cliente", diz Braz.

Segundo ele, a companhia vem abordando clientes atuais e potenciais para desenvolver produtos que tradicionalmente são entregues ao consumidor sem proteína ou colágeno. A ideia é oferecer soluções de formulação e conhecimento de P&D para ampliar a presença de proteínas em produtos de consumo cotidiano. "Uma empresa de massas não é um cliente tradicional da MBRF, mas ela vê a oportunidade de infusionar proteína. A MBRF, então, acaba sendo uma provedora de proteína infusionada", afirma o executivo.

A Gelprime atua tanto no fornecimento do ingrediente quanto no desenvolvimento da aplicação final, explicou o CEO da empresa, Vinícius Vanzella. O colágeno hidrolisado da Gelprime é produzido a partir de matérias-primas bovinas, em uma estratégia de aproveitamento e agregação de valor de matérias-primas já existentes na MBRF. A estratégia também já aparece em produtos da própria companhia, como na linha Perdigão Meu Menu, que conta com refeições prontas com adição de colágeno e até 42 gramas de proteína por porção.

Entre os produtos na mira da companhia estão sucos, águas, energéticos, cafés, chás, bebidas carbonatadas e lácteas, além de massas, pães, biscoitos, sobremesas, cereais e molhos. A estratégia acompanha a expansão da demanda por produtos com maior densidade nutricional. O mercado brasileiro de suplementos movimentou R$ 7,6 bilhões em 2025, alta de 15% ante o ano anterior, segundo a Brasnutri, com base em levantamento da Euromonitor International. Para a MBRF, o aumento da demanda por proteína abre espaço para o colágeno em produtos tradicionalmente não associados à suplementação.

Braz cita, entre os fatores que podem acelerar essa tendência, a maior preocupação dos consumidores com saúde e nutrição e o avanço dos medicamentos da classe dos GLP-1. Segundo ele, a menor ingestão de alimentos entre usuários desses medicamentos pode aumentar a busca por produtos com maior densidade proteica. "Vários fatores indicam, não somente no Brasil, mas no mundo inteiro, uma demanda crescente por colágeno e, em geral, proteínas", afirma.

Segundo dados citados pela empresa, o mercado global de peptídeos de colágeno e gelatina foi avaliado em US$ 4,56 bilhões em 2020 e deve chegar a US$ 7,67 bilhões em 2030, com crescimento médio anual de 5,3%.

É nesse cenário que a MBRF também prepara a expansão da Gelprime. Em março, a companhia anunciou investimento de R$ 500 milhões na empresa, com expectativa de dobrar a capacidade produtiva para 30 mil toneladas anuais até 2030. Segundo Braz, os recursos são destinados principalmente à expansão física e aos equipamentos, e não ao desenvolvimento das novas aplicações. Os ajustes de formulação e o desenvolvimento de propriedades específicas do colágeno fazem parte da operação de P&D e não exigem investimentos de capital de grande porte, explica.

A expansão deve atender clientes atuais, novos clientes e também à demanda da própria MBRF. A Gelprime começa em setembro a operação de sua linha de colágeno funcional, que se soma aos portfólios de gelatina e colágeno hidrolisado da empresa.

O projeto com a Prats é um exemplo dessa estratégia. Após seis meses de trabalho conjunto, as empresas chegaram a uma formulação composta por 94,9% de suco integral de laranja e 5,1% de proteína de colágeno hidrolisado, com 15 gramas de proteína por porção. Segundo a Gelprime, a bebida preserva sabor, aroma e refrescância do suco.

A neutralidade sensorial é apontada pelos executivos como um dos principais diferenciais para ampliar as aplicações. "Um colágeno de boa qualidade não tem odor e não tem sabor, ele é neutro", afirma Braz.

O projeto passou por testes de formulação e de aceitação dos consumidores antes do lançamento. Para Vanzella, a possibilidade de manter as características originais de cada produto é fundamental para que o colágeno consiga avançar para categorias de consumo de massa.

Os desafios variam conforme a aplicação. Em algumas categorias, custo, concentração, estabilidade e condições de processamento podem exigir ajustes específicos. "Os desafios não são generalizados. Os desafios se apresentam por aplicação", afirma Vanzella. O custo varia conforme a formulação e o posicionamento de cada produto. Em algumas aplicações, a concentração necessária pode ser um desafio, mas a empresa não vê, de forma geral, diferença de preço que inviabilize a adoção pelo consumidor.

Além da Prats, Gelprime e MBRF desenvolvem projetos com clientes de diferentes categorias. Os executivos não revelam os produtos ou as empresas envolvidas, mas dizem que há projetos em diferentes estágios e que as próximas iniciativas não ficarão restritas a bebidas.

Segundo Braz, a estratégia é fazer com que os clientes lancem os produtos desenvolvidos em parceria com a Gelprime, levando o colágeno para novas ocasiões de consumo. "É uma quebra de paradigmas na indústria de alimentos", diz.