Na melhor semana desde janeiro, Ibovespa tem 16º recorde do ano, rumo aos 200 mil

10/04/2026 às 17:52 atualizado por Luís Eduardo Leal - Estadão
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Mesmo na contramão do avanço da curva do DI nesta sexta-feira, 10, o Ibovespa sustentou nível recorde pela terceira sessão, chegando aos 197,5 mil pontos no melhor momento, assegurando no fechamento ganho de 4,93% na semana, o terceiro avanço seguido para o intervalo. Foi também o nono dia consecutivo de alta para o índice, selando a melhor semana para o Ibovespa desde 19 a 23 de janeiro.

Na máxima desta sexta, atingiu os 197.553,64 pontos, marcando no encerramento 197.323,87 pontos, em alta de 1,12% nesta sexta-feira, com giro a R$ 33,5 bilhões.

No mês, o Ibovespa sobe 5,26% e, no ano, avança 22,47%, tendo renovado em 2026 recordes de encerramento em 16 ocasiões, com a desta sexta.

Na B3, as principais blue chips avançaram nesta sexta-feira, como Vale (ON +1,06%) e Petrobras (ON +2,49%, PN +2,36%, ambas nas máximas do dia no fechamento), enquanto os ganhos entre os maiores bancos chegaram a 0,74% (Bradesco PN). Na ponta vencedora, Hapvida (+13,05%), Engie (+4,64%) e Prio (+3,36%). No lado oposto, Azzas (-10,88%), Usiminas (-6,12%) e CSN (-5,45%).

Destaque da agenda global nesta conclusão de semana, a inflação nos Estados Unidos subiu ao maior nível em dois anos, puxada pelos preços de energia com a guerra no Oriente Médio. Ainda assim, a primeira leitura desde o início do conflito, no fim de fevereiro, veio em linha com o cenário de Wall Street, que manteve a expectativa de retomada dos cortes de juros nos EUA apenas entre junho e setembro de 2027, reporta de Nova York a correspondente do Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), Aline Bronzati.

Os principais índices de ações em Nova York perderam fôlego à tarde e mostraram variação entre -0,56% (Dow Jones) e +0,35% (Nasdaq) no fechamento, à espera das negociações deste fim de semana entre EUA e Irã, mediadas pelo Paquistão na capital, Islamabad. Os rendimentos dos Treasuries avançaram na sessão, e os contratos futuros do Brent e do WTI tiveram baixa em torno de 1%, em Londres e Nova York, devolvendo recuperação parcial após o tombo do meio da semana, quando cederam dois dígitos na quarta-feira ante a visão de cessar-fogo.

"O Ibovespa já está perto dos 200 mil pontos que era a avaliação, no início de ano, para o nível em que estaria, para muitos analistas, no fim de 2026. Pensando agora no fim do conflito, pode ir uns 35 mil pontos além disso, caso o câmbio favoreça, com dólar em patamar mais baixo. E caso os juros venham a cair mesmo, quem sabe em ritmo maior", diz Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos. Ele cita também a possibilidade de acomodação do petróleo em patamar mais baixo, por volta dos US$ 70 por barril que prevaleciam antes do conflito, o que reduziria a pressão sobre as expectativas de inflação resultante do aumento dos custos de energia em todo o mundo.

Para Tales Barros, líder de renda variável da W1 Capital, "o Ibovespa tem sido favorecido pela redução do prêmio de risco global, que destrava o apetite dos investidores e mantém os emergentes como alternativa de diversificação". Um grupo de mercados em que "o Brasil permanece em posição de destaque, o que explica essas renovações de máximas" para o índice da B3, acrescenta.

O investidor estrangeiro tem sido chave para o apetite por renda variável, considerando, também, o refluxo do dólar que acompanha esse movimento de retirada de prêmios de risco, que resulta em apreciação de moedas de emergentes como o real, diz Barros. "Há momento favorável para a entrada de capital estrangeiro também na Bolsa", avalia. Nesse contexto, o dólar à vista chegou a ser negociado a R$ 5,0055 na mínima desta sexta-feira, em que fechou a R$ 5,0115, em queda de 1,03% na sessão e de 2,88% na semana. No mês, a moeda americana recua 3,23%.

"Mesmo com a fragilidade do cessar-fogo, o mercado comprou essa ideia, o que levou o Ibovespa a renovar máximas depois de algum tempo", diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, em referência à interrupção momentânea da trajetória ascendente que se impôs ao Ibovespa ainda em meados de janeiro. E que de forma geral se estendeu, com poucos ajustes, até o fim de fevereiro quando eclodiu a guerra movida por Estados Unidos e Israel contra o Irã. A partir daí, a oferta global de petróleo foi afetada, revertendo o espaço benigno que havia, até então, para a redução de juros ante o efeito percebido, de imediato, sobre a inflação.

"Há uma descompressão relevante dos ativos. O petróleo caiu forte: saiu de máximas em US$ 113 por barril para a região de US$ 90, as bolsas globais subiram e o dólar perdeu força. No Brasil, o Ibovespa surfou esse ambiente com ainda mais intensidade e renovou sucessivos recordes, chegando à região dos 197 mil pontos, enquanto o dólar se aproximou de R$ 5,00", enumera Bruna Sene, analista de renda variável da Rico. Na semana, o cessar-fogo resultou em queda de 12,7% para o petróleo Brent, referência global, e de 13,4% para o WTI, referência dos EUA.

Neste cenário, melhor do que se via há poucos dias, mas ainda com desdobramentos e evolução incerta, os agentes do mercado financeiro brasileiro estão mais otimistas com o desempenho do Ibovespa na próxima semana. Na edição desta sexta do Termômetro Broadcast Bolsa, a parcela dos profissionais que esperam alta do Ibovespa ficou em 71,43%, enquanto para aqueles que esperam estabilidade foi de 28,57%.

"A reabertura plena da principal rota do petróleo da região, pelo Estreito de Ormuz, permanece incerta", com efeito para os preços da commodity, observa Bruna Centeno, economista na Blue3 Investimentos, destacando certa cautela que prevaleceu nesta sexta-feira no exterior, enquanto não se conhecem os resultados da reunião, no fim de semana, entre representantes de EUA e Irã, no Paquistão.

"Semana muito volátil com foco ainda no Oriente Médio. Cessar-fogo é uma condição não muito clara, mas foi o suficiente para trazer algum fôlego após um início de semana difícil. Mas a chance de que o conflito chegue ao fim ainda em abril parece ter crescido bastante na expectativa do mercado, embora um meio termo pareça difícil no momento", aponta Rachel de Sá, estrategista de investimentos da XP. "Brasil segue, contudo, como um beneficiário relativo, ou mesmo absoluto, considerando a apreciação do real e o fato de o país ser um exportador de petróleo, sem dependência da oferta do Oriente Médio."