Show rural: Santander vê crédito seletivo no setor e carteira estável em 2026

10/02/2026 às 17:36 atualizado por Gabriel Azevedo* - Estadão
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Cascavel, 10 - O Santander avalia que o crédito rural continuará seletivo em 2026, em meio a um ajuste estrutural no agronegócio brasileiro após o ciclo de alavancagem observado no pós-pandemia. O banco projeta que sua carteira no setor permanecerá estável ou avance no máximo 5%, depois de ter encerrado 2025 sem crescimento. O diretor de Agronegócio do Santander, Carlos Aguiar, disse à reportagem que uma leitura mais precisa sobre o comportamento do crédito só será possível a partir de março e abril, quando começa a circular o fluxo financeiro da safra. "Não espero um repagamento das dívidas. O que espero é, pelo menos, o pagamento dos juros e a retomada do diálogo. Com uma safra boa, abre-se espaço para discutir o plano do produtor", afirmou. A carteira do banco no agro ficou praticamente estável em 2025. No início do ano passado, Aguiar foi o único entre os grandes bancos a trabalhar com esse cenário, enquanto concorrentes projetavam expansão entre 10% e 15%. "Na média, houve uma substituição dentro da base, com saída de clientes mais problemáticos e entrada de clientes mais ajustados", disse. Questionado sobre o tamanho da carteira, o executivo afirmou que o banco não divulga volumes. Em declarações públicas anteriores, ele indicou que a exposição do Santander ao agronegócio gira em torno de R$ 50 bilhões, patamar que se manteve praticamente inalterado ao longo de 2024 e 2025. Aguiar divide os clientes do banco em três grupos. O primeiro reúne produtores que não se alavancaram entre 2020 e 2022 e seguem operando sem maiores restrições. O segundo é formado por agricultores que precisam de prazo para reorganizar as finanças, mas têm condições de resolver a situação em três ou quatro anos. O terceiro concentra produtores altamente endividados, que não conseguirão honrar compromissos sem reduzir estrutura, mesmo com alongamento de prazos. "Houve quem se alavancasse acreditando em um novo patamar de rentabilidade. A Selic saiu de 2% para 15% e as margens não se sustentaram. Em alguns casos, mesmo com prazo longo, será necessário reduzir o tamanho da operação, vender ativos ou devolver áreas arrendadas. A margem histórica não era aquela imaginada, e o juro acaba consumindo toda a rentabilidade", afirmou. Na avaliação do diretor, a crise provocou uma mudança permanente na percepção de risco do sistema financeiro. Operações lastreadas apenas em penhor de safra deixaram de ser viáveis, e a exigência de garantias reais passou a ser regra para bancos privados, públicos e cooperativas. "Quem diz que não foi afetado ou não está dizendo a verdade ou não está operando. O único balanço com números totalmente abertos é o do Banco do Brasil, porque o agro representa cerca de um terço do saldo. A partir dele, é possível ter uma boa referência do mercado", disse. O ambiente agrícola no Paraná tende a facilitar as negociações. Aguiar projeta produtividade média de 65 sacas de soja por hectare no oeste do Estado, próxima ao recorde de 66 sacas registrado na safra 2022/2023. "A colheita já começou com indicadores bastante positivos", afirmou. Para clientes que já integram a carteira, o banco mantém disposição para renegociar prazos e estruturar planos de pagamento. A execução de garantias fica restrita a situações em que não há diálogo, quando o produtor entrou em recuperação judicial ou quando espera uma solução externa. "Resolver não é perdoar dívida. É sentar, montar um plano e avaliar o que é possível no primeiro ano, no segundo ano. É um trabalho de ajuste com o cliente", disse. Apesar do tom cauteloso, Aguiar afirmou esperar um cenário melhor do que o de 2025, sustentado por mais uma safra robusta e maior disposição dos produtores para negociar. "Quero acreditar que o pior já passou. O ambiente está mais favorável, há outra safra boa vindo e boa parte dos problemas já apareceu. Agora é voltar ao campo, revisar o que foi alongado e ver se os planos continuam de pé ou precisam de algum ajuste", concluiu. *O jornalista viaja a convite do Sicredi