Taxas de juros sobem com aversão ao risco do exterior e cautela sobre IPCA-15 de abril
Em comportamento destoante do câmbio, os juros futuros negociados na B3 avançaram no primeiro pregão da semana, acompanhando de perto a alta do petróleo e a abertura da curva dos Treasuries. Agentes apontam que o choque causado pela guerra no Oriente Médio segue como principal determinante do movimento e deve justificar um corte mínimo na reunião desta quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom), conforme espera a ampla maioria do mercado.
Há, também, cautela com o resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) de abril, a ser divulgado na terça e que, na visão de operadores, tem chances consideráveis de surpreender para cima, com impacto maior do confronto nos preços. Ao mesmo tempo, o boletim Focus trouxe outra rodada de deterioração das expectativas inflacionárias, reforçando o viés de deterioração para os DIs.
As taxas futuras se consolidaram em terreno positivo desde a abertura dos negócios, registrando máximas intradia na parte da manhã, em sintonia com os retornos dos títulos soberanos dos Estados Unidos. A aversão ao risco veio na esteira do novo fracasso nas negociações entre Washington e Teerã durante o final de semana, que fez os preços do petróleo aumentarem cerca de 2% nesta segunda-feira, 27, com o Brent futuro superando os US$ 100 o barril.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,104% do ajuste de sexta-feira para 14,135%. O DI para janeiro de 2029 aumentou a 13,615%, vindo de 13,48% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou alta a 13,635%, frente a 13,517%.
Para Luis Otávio de Souza Leal, sócio e economista-chefe da G5 Partners, o cenário desenhado pelo entrave nas tratativas entre EUA e Irã é bastante negativo para a inflação. "Acho que está ficando claro o cenário de que mesmo que o conflito acabe, os preços do petróleo devem ficar ao redor de US& 80 a US$ 90 até o fim do ano", aponta Leal.
Isso porque o Irã sairá da guerra mais empoderado e, agora, seu governo sabe que pode fechar o Estreito de Ormuz a qualquer momento, o que deve levar as seguradoras das embarcações que navegam pela rota a exigir prêmios maiores. "Isso vai aumentar os preços do petróleo, que não vão voltar aos patamares pré-guerra", disse.
Em segundo plano como influência de alta para os juros futuros, o economista menciona o relatório Focus desta segunda, que mostrou nova revisão para cima das estimativas para o IPCA. A projeção mediana para 2026 subiu pela sétima semana consecutiva, de 4,80% a 4,87% - afastando-se ainda mais, portanto, do alvo central perseguido pelo Banco Central, de 4,5%. A previsão para 2027 avançou a 4%, de 3,99%, e a de 2028 passou de 3,60% para 3,61%.
Na visão da XP Investimentos, as perspectivas para a inflação pioraram desde a última reunião do Copom, em março, o que deve fazer com que o colegiado adote um tom mais duro no encontro desta quarta-feira e prefira não sinalizar claramente qual será a decisão da próxima reunião. A casa espera um corte de 0,25 ponto na Selic, para 14,50%.
Segundo a equipe econômica chefiada por Caio Megale, a previsão maior do IPCA para 2026 era esperada, diante da intensificação do choque de energia. "Contudo, as expectativas de médio prazo também avançaram: a projeção para 2027 subiu 0,2 ponto porcentual, enquanto a de 2028 aumentou 0,1 ponto. Esse é precisamente o tipo de movimento que um banco central deve, idealmente, evitar diante de um choque inflacionário temporário", afirmam em relatório.
Também como possível fator de pressão sobre os DIs na abertura da semana, profissionais de renda fixa mencionaram a divulgação do IPCA-15 de abril, nesta terça-feira. Segundo a mediana do Projeções Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, a prévia da inflação oficial vai acelerar de 0,44% em março a 0,98% na medição atual.
"Talvez tenham feito hedge ou redução de risco por causa do indicador", apontou um gestor de renda fixa de uma grande gestora do mercado à Broadcast. "É difícil ter alguma notícia boa. Me parece que a chance de ser pior é maior. Se vier pior, é muito ruim. Se vier bom, pode ser meio neutro", explicou.



