Taxas de juros sobem e voltam a superar 14% com cenário turvo para acordo entre EUA e Irã
Os juros futuros percorreram o pregão desta quinta-feira, 26, em firme alta, impulsionados pelo ceticismo em relação a um acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Se, na quarta, a perspectiva de uma resolução aliviou as taxas, nesta quinta informações de que o país persa teria recusado o plano de 15 pontos proposto por Washington, aliada à subida de tom entre os dois lados do conflito, voltou a elevar a aversão ao risco.
Com o acirramento das tensões geopolíticas, o barril do petróleo tipo Brent para junho retomou o nível acima de US$ 100 e fechou em alta de 4,6%, pressionando as curvas de juros globais. No Brasil, mesmo com a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) diminua a Selic em abril, as apostas para o ciclo de relaxamento monetário seguem em reprecificação diante do caráter inflacionário do choque. No fim desta tarde, a curva futura apontava um corte total de apenas 0,75 ponto do juro este ano, para 14,25%, segundo cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG.
Já o IPCA-15 de março mais salgado e o Relatório de Política Monetária (RPM), ambos publicados nesta quinta, foram ofuscados pelas incertezas sobre a guerra. No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 aumentou de 14,088% no ajuste de quarta a 14,32%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,085%, vindo de 13,794% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 avançou de 13,943% a 14,15%.
A agência iraniana Tasnim News, associada à Guarda Revolucionária Islâmica, informou que a resposta do país ao plano de cessar-fogo apresentado pelos EUA foi enviada na noite passada por intermediários. Teerã teria feito uma série de exigências, tais como o fim de "agressões e assassinatos" e pagamento de indenizações, entre outros, e aguarda retorno.
O presidente Donald Trump, por sua vez, garantiu mais cedo que é o país persa que está "implorando" por um acordo, classificando como falsas as notícias da mídia local. Depois de acalmar os mercados ao estipular uma trégua de cinco dias nos ataques ao Irã, cujo prazo se encerra nesta sexta-feira, o republicano evitou responder se a pausa será renovada. No fim da tarde, informou que as negociações estão "indo muito bem" e que vai pausar ofensivas a usinar de energia iranianas até 6 de abril.
Ficou claro para o mercado que há algum tipo de negociação ocorrendo nos bastidores, afirma o economista-chefe da CVPAR, Marcelo Fonseca, e também que, pela retórica recente de Trump, ainda há uma grande distância entre os dois lados. As narrativas conflitantes colocam em dúvida quais devem ser os próximos passos do presidente, diz Fonseca, em meio a especulações na mídia de que ele estuda a possibilidade de autorizar uma invasão terrestre ao Irã para tomar o controle do Estreito de Ormuz.
"Isso vai tornando o cenário de guerra prolongada mais provável e coloca em xeque a perspectiva de que o conflito vai se encerrar relativamente rápido, como é possível observar na curva do petróleo, que está invertida", observa. Para o economista, os efeitos inflacionários da disparada da commodity não serão temporários, mesmo supondo que o fluxo no estreito seja retomado em breve, o que vai exigir que o Banco Central recalibre sua estratégia para a política monetária, rumo a um tom mais conservador.
No RPM, publicado antes da abertura dos negócios, o BC foi considerado 'dovish' e até otimista por alguns agentes, ao estimar uma inflação de 3,3% para o terceiro trimestre de 2027 mesmo após o salto das cotações do óleo. "As projeções agora contemplam alta forte de preços administrados e já incluem um efeito de segunda ordem do choque nos preços livres. Mesmo assim, a projeção do BC ficou em 3,3%", nota o economista de uma grande tesouraria. "Estão 'doves' convictos", disse à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Em sua visão, tanto o documento do BC quanto o IPCA-15 de março, que ficou perto do teto das estimativas ao avançar 0,44%, não fizeram preço nos juros, "nem para o bem, nem para o mal", e a alta dos DIs ainda foi acentuada por zeragem de posições que apostavam na queda. "Estava todo mundo, gringos e locais, muito aplicado, e agora estão reduzindo risco", relatou.



