Carta Grãos e Agricultura - Menos milho, mais soja: a intenção do produtor norte-americano
Relatório anual do NASS, setor estatístico do USDA, apresenta dados de variação da área das principais culturas agrícolas nos Estados Unidos em comparação com o ano passado

O NASS (National Agricultural Statistics Service), braço estatístico do USDA, divulgou em 31 de março o seu relatório anual de intenção de semeadura para os Estados Unidos, documento que antecipa o que os produtores planejam semear no ciclo 2026/27, cujo processo começa em abril.
Para o milho, a área deve recuar 3,0% em relação ao ciclo anterior, 1,4 milhão de hectares de redução, com a estimativa fixada em 38,6 milhões de hectares. Já a soja segue o movimento oposto, com avanço de 4,0%, e área estimada em 34,3 milhões de hectares.
A perspectiva para o trigo acompanhou a do milho na direção negativa, com recuo também de 3,0% e a área estimada em 17,7 milhões de hectares. Se confirmado, será a menor área semeada com a cultura desde 1919, segundo os próprios registros do NASS.
Por fim, o algodão fecha o quadro com expansão de 4,0%, alcançando 3,9 milhões de hectares. Cabe ressaltar, no entanto, que essas estimativas estão sujeitas a revisões relevantes.
O relatório é elaborado com base em pesquisas diretas junto aos produtores, realizadas entre o fim de fevereiro e o início de março, período em que a guerra EUA-Irã ainda estava no começo e o impacto nos custos de insumos era incerto. Em outras palavras, é possível que os números não reflitam integralmente as decisões de semeadura tomadas pelos produtores já sob o cenário de escalada do conflito, em um ambiente de custos mais pressionado.
Com a guerra pressionando os custos de fertilizantes para cima, a equação econômica do milho tende a se deteriorar mais do que a da soja, já que o milho exige um volume significativamente maior de adubos, principalmente nitrogenados, do que a soja, o que pode incentivar uma migração de área ainda maior do que a captada pelo relatório. Nesse sentido, o mercado de grãos pode estar começando a precificar parte desse cenário.
A relação de preço soja/milho, que historicamente orbita entorno de 2,5 (nível considerado de equilíbrio na decisão de semear do produtor norte-americano), recuou para próximo desse patamar após o início do conflito, ou seja, o milho se valorizou mais do que a soja (figura 1), mesmo em uma tendência de alta da maioria das commodities. Mas, mesmo assim, a relação de preço permanece favorável para a semeadura da soja.
Relembrando, relação acima de 2,5 incentiva a semeadura de soja e abaixo incentiva a de milho, de maneira generalizada. Rotação, custos locais e preços de vendas locais também influenciam muito.
Figura 1.
Relação de preço soja/milho na CBOT, desde o começo de 2026.

Fonte: CBOT, Scot Consultoria / Elaborado por Scot Consultoria
Será necessário aguardar as próximas revisões do NASS, em especial o relatório de junho, para um quadro mais preciso. Ainda assim, não se pode descartar ajuste adicional de área com milho, caso o choque de custos persista.
Para o Brasil, os reflexos se dão de forma distinta para cada cultura. No milho, uma eventual redução da área nos Estados Unidos pode limitar a oferta exportável do país e abrir espaço para maior demanda pelo cereal brasileiro, desde que outros exportadores relevantes, como Argentina e Ucrânia, não compensem essa lacuna.
Na soja, o efeito tende a ser mais direto, uma vez que o mercado brasileiro acompanha mais de perto Chicago. Nesse caso, a expansão da área semeada nos Estados Unidos adiciona viés baixista aos preços mais à frente e pode ampliar a pressão sobre a soja no mercado brasileiro.
Informações: Scot Consultoria



