Datagro: guerra expõe vulnerabilidade de milho, açúcar e carnes do Brasil

Consultoria alerta que a maior concentração nesses mercados aumenta a sensibilidade a disrupções geopolíticas, sobretudo por se tratar de um insumo essencial para ração animal e altamente dependente de logística contínua

25/03/2026 às 17:29 atualizado por Leandro Silveira - Estadão
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São Paulo, 25 - A escalada do conflito no Oriente Médio, que se soma à guerra entre Rússia e Ucrânia no Leste Europeu, expõe de forma desigual a pauta exportadora do agronegócio brasileiro, com maior vulnerabilidade concentrada em milho, carnes (especialmente frango e bovinos) e açúcar, enquanto soja, café e suco de laranja tendem a sofrer impactos limitados, segundo análise da Datagro. Entre os produtos mais sensíveis, o milho se destaca como o principal vetor de risco. A região do Oriente Médio passou a responder por cerca de 30% das exportações brasileiras do grão, com destaque para o Irã.

A consultoria alerta que a maior concentração nesses mercados aumenta a sensibilidade a disrupções geopolíticas, sobretudo por se tratar de um insumo essencial para ração animal e altamente dependente de logística contínua. Nesse contexto, tensões envolvendo o Golfo Pérsico podem resultar em aumento de custos logísticos, restrições operacionais e até adiamento de compras, com potencial de gerar sobreoferta doméstica no segundo semestre e alguma pressão aos preços domésticos no Brasil". No segmento de proteínas, a vulnerabilidade também é relevante, ainda que com nuances.

No caso da carne bovina, cerca de 10% dos embarques brasileiros em 2025 tiveram como destino regiões em conflito, principalmente o Oriente Médio e a Rússia. Além da exposição direta, a Datagro destaca riscos indiretos, como a elevação de fretes e seguros marítimos. Já nas carnes de aves, a dependência do Oriente Médio é ainda mais significativa: cerca de 30% das exportações brasileiras de frango são destinadas à região. Segundo a análise, trata-se de uma vulnerabilidade evidente, tanto pelos riscos logísticos quanto pela dificuldade de internalização das cargas em países do Golfo.

No caso do açúcar, embora o Brasil tenha participação dominante no comércio global, com 51,5% das exportações mundiais, a exposição ao Oriente Médio também é relevante. Em 2025, a região respondeu por 17,1% dos embarques brasileiros, reforçando sua importância como polo de demanda. Em compensação, parte relevante da pauta agroexportadora brasileira apresenta baixa exposição direta aos conflitos.

A soja em grão, principal produto do agro, tem apenas 2,3% das exportações direcionadas a Oriente Médio, Rússia e Ucrânia, com forte concentração na China. "Espera-se que o impacto dos conflitos para a cadeia de soja seja concentrado sobre fretes encarecidos", aponta a Datagro. Situação semelhante é observada no café, cuja exposição direta às regiões em conflito gira em torno de 6% da receita cambial. Nesse caso, os efeitos tendem a ser indiretos, via custos logísticos e insumos, mas também podem abrir oportunidades comerciais diante da perda de competitividade de concorrentes asiáticos. No suco de laranja, a exposição é ainda mais limitada: menos de 1% das exportações têm como destino regiões em conflito, o que leva a consultoria a concluir que o impacto é marginal para o setor. Por fim, o etanol aparece como uma das cadeias menos vulneráveis, já que apenas 4,4% da produção brasileira é exportada e os principais destinos estão fora das áreas de conflito, como Coreia do Sul, Estados Unidos e Europa.