Dólar vai a R$ 5,01 com exterior negativo e ajustes após rali eleitoral
Após dois pregões seguidos de queda, em que acumulou desvalorização de 4,62%, o dólar subiu nesta quarta-feira, 7, frente ao real e ultrapassou a marca de R$ 5,00. A alta global da moeda norte-americana e os níveis elevados das taxas dos Treasuries pesaram sobre as divisas emergentes, o que pode ter levado investidores a embolsar lucros obtidos com o rali eleitoral.
Depois de rondar os R$ 5,00 ao longo a tarde, o dólar à vista tocou máxima de R$ 5,0167 na reta final dos negócios, embora não tenha ocorrido aceleração dos ganhos da moeda lá fora.
Operadores não identificaram um gatilho específico para esse movimento, mas citam possível desconforto com declarações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de que o projeto que põe fim à escala 6x1 pode ser apreciado antes do segundo turno. Trata-se de uma das bandeiras de campanha do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O dólar terminou o dia em alta de 0,72%, a R$ 5,0112. Com o tropeço no fim do pregão, o real amargou o pior desempenho entre as divisas latino-americanas. Na semana, a taxa de câmbio recua 3,94%, o que leva as perdas acumuladas em 2026 para 8,70%.
O economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, avalia que o câmbio já absorveu boa parte do impacto do fluxo estrangeiro e da queda do prêmio de risco com o chamado "trade eleitoral". "O anúncio de apoio de outros candidatos à candidatura que o mercado considera propensa a fazer um ajuste fiscal limita a intensidade da alta do dólar frente ao real", afirma Velho.
Em costura política para o segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) já obteve o apoio dos candidatos derrotados Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além do endosso do PP e do União Brasil. Ele ainda negocia com Republicanos e Podemos. A expectativa é pela divulgação, na quinta-feira, 8, da primeira pesquisa Datafolha para o segundo turno.
"Após o rali no primeiro turno, a direção dos preços dos ativos provavelmente dependerá dos sinais das pesquisas, das declarações dos candidatos sobre cargos-chave no gabinete e de um esboço mais preciso para a estratégia fiscal", afirma o Goldman Sachs, em relatório assinado pelo diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina, Alberto Ramos.
Lá fora, o índice DXY - referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes - subia 0,46% perto do fim da tarde, após máxima aos 102,499. A taxa da T-note de 10 anos operava na casa de 5,28%, em ligeira queda, depois de máxima de 5,36%, maior nível em 24 anos. Após esboçar uma arrancada pela manhã, os preços do petróleo perderam força à tarde, mas o contrato do Brent para dezembro se manteve acima dos US$ 100 por barril.
Divulgada à tarde, a ata do encontro do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em setembro, quando a taxa básica dos EUA foi elevada para a faixa entre 3,75% e 4%, reiterou que as atenções do BC dos EUA seguem voltadas para a inflação. A maioria dos dirigentes do Fed avalia como apropriado um novo aumento do juro básico até o fim do ano.
A economista Luíza Pinese, da XP, destaca que o "ambiente global segue ambíguo" para o Brasil. De um lado, há o aperto monetário nos EUA e juros mais altos nas economias avançadas. De outro, os preços de commodities relevantes para o país, como petróleo e grãos, seguem elevados, o que favorece os termos de troca.
"A escalada das taxas dos títulos soberanos de longo prazo nos Estados Unidos reduz a atratividade relativa dos ativos financeiros de economias emergentes, sendo o principal risco para a moeda brasileira", afirma Pinese, que mantém projeção de taxa de câmbio em R$ 5,00 em dezembro deste ano e de R$ 5,30 no fim de 2027. "Caso a perspectiva de um ajuste fiscal mais profundo ganhe tração após as eleições, a apreciação recente tende a se sustentar e abrir espaço para uma taxa de câmbio mais valorizada, sobretudo em 2027."



