Estratégia de exportação da Scania busca otimizar fábrica no ABC, diz executivo
Diante do impacto dos juros altos nas vendas de caminhões no Brasil, a Scania transferiu para a fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, as exportações a mercados no Oriente Médio e na Oceania. A ideia é preencher a capacidade no Brasil, onde as encomendas estão baixas, e desafogar as fábricas que estão com as carteiras de pedidos lotadas na Europa.
O rearranjo foi relatado pelo vice-presidente de Logística da Scania, Fabio Castello, em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) na sede da multifuncional sueca em Södertälje, cidade a 30 quilômetros da capital Estocolmo. "A partir do momento que identificamos que teríamos capacidade ociosa em São Bernardo, mercados overseas começaram a ser transferidos ao Brasil, liberando capacidade na Europa. Estou falando de destinos como Dubai, Abu Dabi, Arábia Saudita, Austrália e Nova Zelândia", comentou o executivo.
Ele revelou ainda que o Brasil deve fornecer componentes para a fábrica que a Scania está para inaugurar, ainda neste ano, em Rugao, na China.
Brasileiro, Castello entrou na Scania em 1994 como trainee e, após ser promovido a cargos de liderança no Brasil, na Europa e no Oriente Médio, assumiu o comando da logística não apenas da Scania, mas também do grupo Traton, onde estão as marcas de veículos comerciais da Volkswagen - entre elas, a International, que tem fábricas nos Estados Unidos, de Donald Trump.
Na entrevista ao Broadcast, ele conta que as tarifas de Trump ainda não levaram o grupo a substituir fornecedores da Europa por americanos. Apesar de uma série de dificuldades no transporte de cargas - de conflitos geopoliticos que obstruem rotas a barreiras tarifárias, passando pelas mudanças climáticas -, Castello diz que já enfrentou mais dificuldades. "Eu diria que o momento mais crítico foi durante a covid, porque havia uma incerteza muito grande."
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Como dificuldades relacionadas a conflitos geopolíticos, barreiras tarifárias e mudanças climáticas afetaram rotas, prazos e custos da Scania?
Por sermos uma empresa baseada no conceito de produto e soluções globais, sempre defendemos o livre comércio. Porém, sabemos que existem barreiras alfandegárias e não alfandegárias. Quando desenhamos novas rotas, levamos em consideração a situação atual e qual pode ser a situação no futuro. Quando vamos nomear um fornecedor, fazemos a análise de onde está o fornecedor, onde as peças vão ser consumidas, qual é custo de transporte, se existem barreiras alfandegárias e não alfandegárias. São fatores incorporados nessa análise de prós e contras. Quando acontecem mudanças - como covid, greve ou bloqueio do canal de Suez -, elas são incorporadas em nosso modelo, e decidimos se vale a pena mudar o fluxo. Por exemplo, como o transporte marítimo não passa mais pelo Mar Vermelho em razão dos ataques de rebeldes houthis no Canal de Suez, é preciso contornar toda a África. Todo transporte marítimo entre Europa e Ásia aumentou em 20 ou 30 dias.
As tarifas dos Estados Unidos também exigem um rearranjo?
A Scania está pouco exposta. Temos um fluxo de materiais limitado com a América do Norte. Se tivéssemos um fluxo representativo, diria que estaríamos refazendo essas análises.
Mas respondendo a essa questão como executivo do grupo Traton, que tem operações nos EUA, as tarifas trazem a necessidade de verticalizar mais e produzir quase tudo no país para evitar as tarifas?
Entre Brasil e Estados Unidos, estamos muito pouco expostos. Entre Europa e Estados Unidos, este problema das tarifas existe, no fornecimento de componentes para a nossa marca nos Estados Unidos. Mas nada que esteja mudando os nossos fluxos hoje, porque os investimentos no desenvolvimento de peças são de longo prazo. Leva muito tempo substituir produtos que levam muita tecnologia e têm prazo de desenvolvimento longo. Então, procuramos levar em conta se essa situação vai durar cinco anos, dois anos ou meses.
A Scania está perto de inaugurar uma fábrica na China. Haverá integração entre essa nova operação com a fábrica de São Bernardo do Campo?
Sim. Alguns componentes já foram localizados, outros, os mais complexos, serão abastecidos à fábrica da China pela Europa ou pelo Brasil.
Quais componentes, por exemplo?
Principalmente componentes de motor e da caixa de câmbio, onde há alta tecnologia, muita inovação e que a Scania considera estratégico.
A ideia é também importar os caminhões chineses no Brasil?
A princípio, não. A fábrica na China vai atender, no primeiro momento, o mercado local e os mercados asiáticos vizinhos. Os clientes da América Latina vão continuar sendo atendidos pela planta de São Bernardo.
Hoje, a demanda por caminhões está mais fraca no Brasil, por conta dos juros altos, e aquecida na Europa. Isso tem feito a Scania usar mais a fábrica de São Bernardo para exportações?
Com certeza. No ano passado, o mercado brasileiro foi recorde. Então, a planta de São Bernardo estava atendendo quase que exclusivamente o mercado brasileiro, e quase todos os outros mercados estavam sendo atendidos pela Europa. A partir do momento que identificamos que teríamos capacidade ociosa em São Bernardo, mercados overseas começaram a ser transferidos ao Brasil, liberando capacidade na Europa. Estou falando de destinos como Dubai, Abu Dabi, Arábia Saudita, Austrália e Nova Zelândia.
O senhor trabalha com logística há quanto tempo?
Trinta e um anos.
Diria que este é o momento mais desafiador, levando em conta a tempestade perfeita em que mudanças climáticas, conflitos geopolíticos e barreiras tarifárias acontecem ao mesmo tempo?
Não diria. Eu diria que o momento mais crítico foi durante a covid, porque havia uma incerteza muito grande. Imagina, entre 1.230 fornecedores que atendem a Scania, não sabia quem iria fechar, quando e por quanto tempo, se seria possível transportar. Então, mais uma vez, graças ao sistema global, conseguimos distribuir as peças a todas as nossas plantas de maneira quase regular. Fomos uma das últimas indústrias automotivas a ter que parar a produção por falta de componentes, e fomos uma das primeiras a retomar porque esse sistema está totalmente interligado.
*O repórter viajou a convite da Scania