Governo Trump sinaliza investimento em processamento de terras raras no Brasil

11/02/2026 às 21:27 atualizado por Felipe Frazão - Estadão
Siga-nos no Google News

Em conversas por um acordo de minerais críticos com o Brasil, o governo Donald Trump deu sinal verde nesta quarta-feira, dia 11, para financiar o processamento e o refino de terras raras no País, uma das exigências do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Departamento de Estado e o Itamaraty mantêm tratativas sobre a exploração de minerais críticos no subsolo brasileiro, um dos temas da viagem do presidente a Washington.

"Os Estados Unidos consideram o Brasil um parceiro essencial em minerais críticos, tanto pelas imensas e ricas reservas naturais de minerais críticos do Brasil, quanto pela sofisticação e diversificação de sua economia, que lhe permitem realizar o processamento no próprio Brasil e ajudar os Estados Unidos a diversificar os mercados de processamento e refino de minerais críticos", disse o secretário de Estado adjunto Caleb Orr, responsável por Assuntos Econômicos, Energéticos e Comerciais em entrevista coletiva.

Questionado pelo Estadão se o governo Trump planejava chegar a um acordo na visita de Lula a Trump, prevista para março na Casa Branca, o diplomata afirmou que espera avanços. A data ainda não foi oficializada, mas o presidente brasileiro indicou interesse em ir a Washington na primeira semana no mês.

"Os Estados Unidos estão em negociações ativas com o Brasil sobre essas e outras questões comerciais, e esperam avançar nesse sentido. Os Estados Unidos estão ansiosos para trabalhar com o Brasil", respondeu o americano.

Em apresentação a jornalistas, o integrante do Departamento de Estado mencionou que o governo americano já investiu em dois projetos em Goiás de mineração de terras raras pesadas (Serra Verde e Aclara) e que seria um "próximo passo natural" ampliar para processamento e refino no País.

Na semana passada, o governo Trump anunciou um investimento de R$ 3 bilhões (US$ 565 milhões) na Serra Verde, como parte do pacote da formação de uma iniciativa global para ampliar fornecedores de minerais críticos e isolar a China. O dinheiro será usado em financiamento para extração de terras raras leves e pesadas.

"Estamos explorando ativamente oportunidades para apoiar a capacidade no Brasil por meio de financiamento e cooperação técnica da Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA, comumente conhecida como DFC", relatou Orr.

"Acreditamos que o Brasil é um parceiro muito promissor para os Estados Unidos. Nossa abordagem reconhece que as cadeias de suprimentos exigem parcerias sólidas, seja por meio do processamento no Brasil, nos Estados Unidos ou em ambos, e esperamos continuar trabalhando com o Brasil."

Seminário sobre terras raras

O governo Trump planeja junto à Amcham Brasil - Câmara Americana de Comércio para o Brasil e o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) um seminário também em março, possivelmente após a visita do petista à Casa Branca.

Estabelecer parcerias em minerais críticos virou uma prioridade diplomática do governo Trump e da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. O Departamento de Estado diz que busca no próprio continente acesso a reservas e alternativas a "fornecedores não confiáveis" - uma menção indireta aos chineses. Já assinaram acordos com Argentina, Paraguai, Peru e Equador.

A China é o principal detentor e, sobretudo, processador de minerais críticos do mundo e terá um papel central nas próximas décadas, conforme projeções da AIE (Agência Internacional de Energia).

Pequim domina o refino de 19 dos 20 minerais críticos listados em estudo da agência Perspectivas Globais para Minerais Críticos 2025: com 44% do cobre, 70% do lítio, 92% das terras raras, 95% do grafite e 99% do gálio.

Na semana anterior, o governo brasileiro avaliou que não era o caso de aderir às iniciativas de Washington agora, e participou em baixo nível político da Reunião Ministerial de Minerais Críticos e do lançamento do Fórum para o Engajamento Geoestratégico em Recursos (Forge).

Controle sobre a cadeia de suprimentos de minerais críticos e terras raras tornou-se uma questão estratégica para os EUA.

Independência estratégica

Para um integrante da Presidência da República, a proposta americana visa claramente excluir a China e desafiar sua dominância no setor, e o Brasil, por ser detentor da segunda maior reserva global de terras raras conhecida, não poderia se amarrar a um pacto político similar a uma "camisa de força" e dar exclusividade aos EUA.

O País é considerado um manancial de recursos, sobretudo das terras raras, mas ainda explora pouco e desconhece o potencial completo de seu subsolo.

Integrantes do governo viram na mais nova estratégia americana uma forma de garantir reservas e exclusividade de suprimento, excluir a China, seu principal adversário e desafiante global de longo prazo, formar estoques e reduzir a volatilidade no preço.

O País deve buscar uma abordagem mais universalista na busca de parceiros, com objetivo de garantir autonomia e processamento dos minerais em solo nacional. São potenciais parceiros os EUA, China, União Europeia e Índia, com quem autoridades já discutem um acordo previsto para ser assinado na próxima semana, durante visita de Lula a Nova Délhi.

O Palácio do Planalto tem preferência por fazer acordos bilaterais, país a país, em vez de fazer parte de blocos ou organismos internacionais no campo dos minerais críticos, criados para influenciar preços e mercados.

"Os Estados Unidos estão buscando soluções vantajosas para todos quando se trata de processamento, para diversificar esse mercado e realmente torná-lo um mercado viável", ponderou Orr.

EUA x China

Ao responder sobre a presença de empresas chinesas em iniciativas de mineração nos países sul-americanos, ele negou que as políticas americanas sejam retaliação à China e afirmou que os EUA buscam garantir resiliência e um padrão alto na cadeia de suprimentos.

O diplomata se negou a comentar se as negociações a respeito de uma parceria envolvendo minerais críticos havia sido envolvida nas tratativas diplomáticas para levantar sanções contra autoridades brasileiras, como a cassação de vistos e a Lei Magnistsky.