Juros: taxas têm firme baixa com suporte da queda do dólar e quadro eleitoral no radar

21/08/2026 às 18:35 atualizado por Arícia Martins - Estadão
Siga-nos no Google News

Ainda que sem fundamentos concretos, os juros futuros tiveram um pregão bastante positivo e queimaram prêmios em bloco nesta sexta-feira, com destaque para os vencimentos longos, que chegaram a devolver quase 20 pontos-base. Segundo agentes, o alívio teve como pano de fundo expectativas de uma disputa presidencial mais equilibrada, contando também com suporte do enfraquecimento global do dólar. Uma vez que rumores sobre pesquisas eleitorais tiveram maior peso no dia, a abertura da curva dos Treasuries foi ignorada.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,725%, no ajuste da véspera, a 13,71%. O DI para janeiro de 2029 exibiu baixa a 14,17%, vindo de 14,274% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou firme queda, de 14,59% a 14,425%.

No cômputo semanal, a curva de juros futuros brasileira perdeu inclinação, a despeito do estresse observado no mercado de títulos públicos dos Estados Unidos que levou o departamento do Tesouro americano a atuar para injetar liquidez. Frente ao fechamento da última sexta-feira, a taxa projetada para janeiro de 2027 caiu cerca de 5 pontos-base, enquanto os vértices de janeiro de 2029 e janeiro de 2031 devolveram ao redor de 20 pontos.

Por aqui, a sessão de hoje foi novamente de agenda econômica escassa, mas ganhou terreno o sentimento de que a pesquisa Datafolha, a ser publicada ainda nesta sexta, indique que a competitividade do senador Flávio Bolsonaro (PL) tenha melhorado, em vista do noticiário recente mais negativo para o presidente Lula devido à crise envolvendo seu filho, Lulinha.

Reforçaram essa percepção, de acordo com agentes, 'trackings' eleitorais que apontaram essa tendência. Na visão do mercado, Flávio teria maior probabilidade de entregar um ajuste fiscal, ao passo que um segundo governo Lula continuaria com postura expansionista nas contas públicas.

A economista-chefe da BuysideBrazil, Andrea Bastos Damico, afirmou que a cobertura política da mídia pareceu desfavorável a Lula, que lidera na maioria das pesquisas eleitorais e viu sua vantagem no segundo turno sobre Flávio Bolsonaro diminuir - ou até mesmo, em uma pesquisa, aparecer atrás - nos últimos dias.

"A principal razão para esse estreitamento deve ser uma dor de cabeça que vai persistir ao longo de toda a campanha, mas cuja natureza também afetará seu principal adversário: negociações nebulosas envolvendo familiares próximos, que acabam virando manchetes de jornal e capas de revista", declarou Damico.

Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio Leal destaca que não viu nenhum fator concreto que motivou o alívio do mercado local de renda fixa hoje, mas o comportamento foi relacionado ao ambiente doméstico, dado que a curva dos Treasuries se manteve pressionada. "Certamente não foi o cenário externo que ajudou", disse, apontando, além dos boatos relacionados a trackings e pesquisas, a divulgação, mais cedo, de integrantes da equipe econômica de Flávio.

Em nota, foram anunciados Eduardo Cavendish Carvalho, Alexandre Ywata, Alexandre Mesa, Andrei Spacov, Arilton Teixeira, Myrian Prado e Vladimir Kühl Teles. O grupo se une à ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, e ao ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida.

Leal acrescenta que a desvalorização global do dólar, que caiu 0,93% ante o real no pregão, também ajudou a manter os juros comportados, mas dá maior enfoque a fatores locais. "Se fosse só o dólar, o efeito seria maior na parte curta, mas vimos a curva inteira fechando".